Relato – Europa 2011

Tuna – Trailler Europa 2011


A tour Européia: último relato!

A tour acabou: foram 44 dias, 29 shows, uma semana ao norte da Suécia, no meio da floresta, com banhos em lagos, sauna a lenha, mais banhos em lagos, alces… alguns dias na Dinamarca e uns ao norte da Alemanha e depois foi show atrás de show. Tudo que você está lendo agora já aconteceu há um bom tempo e nossa incapacidade de manter esse diário próximo aos acontecimentos se deu por uma parcela de irresponsabilidade e por tentarmos viver ao máximo cada minuto naquela terra europeia, afinal não é sempre que estamos lá. Segue aí o relato mais que póstumo: divirta-se, aprenda, entenda…

10 de julho bem cedo já estávamos na estrada sentido Praga, Repúplica Tcheca. Queríamos chegar cedo para andar um pouco pela cidade e conhecer um pouco das suas construções  e história. A viagem foi um tanto longa, mas como estávamos ansiosos não sentimos muito e conseguimos chegar com um bom tempo para tudo que queríamos fazer. Estacionamos bem perto do centro e andamos pela cidade, suas praças, igrejas, a famosa ponte e o palácio. A maioria das construções são do seculo XVIII, mas algumas são do século XIV. Esculturas católicas assombrosas, outras lindas, uma das cidades mais bonitas que vimos até agora, os preços das coisas são muito mais baratos em relação ao resto da europa, desde gasolina até comida. Uma paradinha em uma taverna e seguimos para o local do show.


O GPS, ou nossa falta de aptidão com ele, nos levou a outro lugar, mas por fim conseguimos chegar ao parque onde seria o show. Um bar-café no meio do parque, com coisas veganas, uma galera punk trampando, uma galera fazendo picnic, outros se divertindo, cachorros punks correndo e bagunçando entre todos e todas. Fomos super bem recebidos, com um clima bastante amigável.


Soubemos que havia um outro show marcado para  nós no mesmo dia e horário, ali mesmo em Praga, mas não entendemos quem tinha marcado, constava no site de um outro pub. Como não tínhamos mais informações sobre esse outro show, ficamos por ali mesmo, no parque, conversando muito com uma brasileira que mora na Finlândia e que estava em Praga porque tinha ido ao Obscene Extreme Festival e aproveitou para conhecer uma banda brasileira.

A primeira banda, Sanitarium, tocou cedo pois tínhamos que terminar o show antes das 22h. Apesar de cansados,  pois também estavam no Obscene, tocaram super bem com um som energético e um show curto, pois o tempo corria. Logo que terminaram, montamos nosso equipo e tocamos, um show rápido com menos músicas devido ao tempo e num clima super energético. Fim, de show, suor, bate papo e antes da meia-noite já estávamos na van para uma viagem super longa até Zagreb. Partimos, com a promessa de que sempre teria alguém conversando com nossa princesa guerreira Xenia, que dirigiria aquela noite… após 30 minutos, todos dormiam, menos ela, que mandou super bem no voltante até chegarmos na fronteira da Croácia; todxs, devidamente acordadxs, estavam tensos para a entrada no país.

Instruídos por nossxs amigxs que organizaram o show em Zagreb e com uma carta convite, a entrada não foi tão difícil. O policial nos intimou com um inglês maravilhoso: “Alguém aí tem drogas? Se tiver é melhor para vocês me avisarem neste momento, Now!”. Resposta negativa e seguimos adiante.
Chegamos ao Medika, um squat com quase 3 anos, enorme e que era antes uma fábrica de medicamentos, o que o fazia ter um cheiro forte de iodo em todos os lugares. Lá moram 10 pessoas e alguns visitantes. Hoje eles mantêm um acordo com a prefeitura em relação a parte do squat, mas outra parte continua ocupada ilegalmente. A biblioteca é bem variada, o infoshop tem bastantes zines, revistas, livros e é muito bem organizado.

O show foi dividido com uma banda local e uma sueca. Por fim virou um encontro com amigxs da nossa primeira semana na Suécia e com as novxs amigxs croatas. Tínhamos uma oficina de saúde da mulher neste dia, mas Andreza não estava muito bem e acabamos cancelando. Durante o show ela falou coisas muito legais sobre saúde da mulher e autonomia, o que conquistou uma galera e nossas anfitriãs.

No dia seguinte, recebemos um email do organizador do nosso show na Eslovênia cancelando nosso show. Resolvemos ir direto para Innsbruck, no mesmo dia, mas antes queríamos passar em algum lugar tranquilo para comer algo e, se possível, nadar um pouco. Ainda em Zagreb encontramos uma praça legal, mas com um lago bem feinho e sujo, e resolvemos seguir viagem sentido Innsbruck até encontrar um lugar e parar um pouco.

Algumas horas depois desviamos um pouco nosso caminnho sentido um lago já na Eslovênia. Chegando lá, vimos o lago com a água mais bonita que já tinhamos visto, um lago enorme e com águas cristalinas, no meio dos Alpes. Passamos horas pulando, uns jogando merda de pássaros em outros até a fome apertar.

Então procuramos um lugar para comer uma pizza, um barzinho típico em uma casa do século XIX, muito bem arumadinha, deliciosa e com atendentes muito simpáticos. Comemos e seguimos viagem até chegarmos a Innsbruck, onde nosso anfitrião nos esperava já há um tempo, pois deveríamos ter chegado 4 horas antes. Fomos recebidxs com grande hospitalidade, e ainda havia camas para todxs.

No dia seguinte acordamos, encontramos o melhor café da manhã de toda a tour e um clima delicioso. Comemos e seguimos para um lago nas montanhas, estávamos na região do tirol, uma região montanhosa, linda, com lindos lagos.  Este a que íamos, infelizmente, tem acesso restrito e pago, mas 6 brasileiros, 2 suecos, 1 italiano, uma espanhola e 1 austríaco não pagariam, não estando todxs juntxs. E lá fomos nós pular cerca; depois saímos correndo e sentido o lindo lago, este com trampolim e plataforma de mergulho. Posso dizer que essa foi a tour dos lindos lagos.


Após saltos de trampolim, jogar bola, mergulhar, entramos em uma plantação de batatas, pegamos algumas (não poucas) para o jantar de todas as bandas e fomos para o espaço onde seria o show, o Café Decentral, um espaço alugado pelos coletivos anarquistas da região para suas reuniões, shows, bar, café etc. Esta é uma prática de lugares onde a ocupaçao é dificil: os grupos alugam um espaço e dividem seus projetos.

Tocaríamos naquela noite com uma banda local chamada Cachorros Viciados, que tem um brasileiro no vocal e com a Wrath Cobra, dos EUA, que se juntou ao show após o cancelamento do deles naquele dia, em outra cidade. Tivemos uma noite com bons encontros e ótimos momentos… após os show ainda rolou uma festa até o dia seguinte; algumxs foram dormir, outrxs ficaram se divertindo…

Acordamos no dia seguinte, alguns com poucas horas de sono: outro ótimo café da manhã e saímos em direção à Suiça, um povoado chamado La Sarraz, pertinho de Lausanne. A recepção foi ótima: o amigo Rafael Bosa e a amiga Priscila nos aguardavam no espaço cultural La Bille, um espaço alugado, com serralheria alternativa, bar, sala de jogos, armações de ferro por vários lugares, um pequeno infoshop, uma loja grátis, ótima comida… o show teve mais uma banda e o som do lugar era muito legal. Tocamos e fomos para Lausane, dormir na casa dxs nossxs anfitriões brasileirxs. Andreza passou mal devido a algo na comida que não lhe bateu bem. Foi uma noite difícil, mas com bastante atençao e chás que ajudariam em sua melhora.

Acordamos cedo, pois a viagem até Grenoble era bastante aguardada, mas a Andreza ainda não se sentia bem. Compramos alguns remédios e seguimos viagem. Chegamos a Grenoble direto no Infoshop, uma lojinha muito bonita, com diversos livros, discos, zines, café, tudo muito inspirador. Andreza continuava bem mal mas resolveu dar a oficina de saúde da mulher no infoshop, contando com a tradução da nossa amiga francesa Colyne, que fala português. A oficina rolou com umas 10 mulheres entre punks, feministas, donas de casa… foi bem legal e produtiva, tudo sempre com muito carinho e atenção.

Depois fomos para o squat onde tocaríamos e encontramos nossos amigos do Chicken´s Call, pessoal que foi nosso porto seguro nessa tour, organizou toda a produção do nosso primeiro disco e nos incentivou a organizar a tour europeia. Foram ótimos momentos. O squat tem um ano e deve durar pelo menos mais 6 meses. Tem oficina de silk screen, estúdio, bar, espaço para shows, dormitório, casa para algumas pessoas, distro.
A banda da noite foi o Chicken´s Call, um show cheio de energia e execução impecável, com a galera cantando todas as músicas junto.


A Andreza continuava deitada dentro da van, o que nos fez pensar em deixar de tocar naquela noite… O pessoal do squat continuava dando atenção para a gente: chás, arroz sem tempero, tudo para que a Andreza melhorasse… Por fim ela resolveu tentar tocar, mesmo se sentindo muito mal.
Parece que a música é um ótimo remédio para o corpo e a mente mesmo: começamos a tocar e a energia que fluía no local começou a fluir dentro de nós também e conseguimos fazer um de nossos melhores shows, o som do local é muito bom, a acústica perfeita e o equipamento foda.


Depois da apresentação a Andreza voltou ao descanso e continuamos conversando muito com nossxs amigxs franceses, para aproveitar ao máximo o tempo que teríamos juntxs, pois no dia seguinte a viagem seria longa, teríamos que acordar cedo e já não sabíamos mais quando voltaríamos a nos ver. Foi ótimo.


Acordamos, arrumamos tudo muito rápido. Esperamos a ótica onde o Paulo tinha deixado os óculos, quebrados com uma cabeçada de amor da Maria, a espanhola de Innsbruck, abrir. Nesse meio tempo ele usou os óculos de sol, que também têm o grau necessário para o cegueta ver. Nos dois shows que seguiram ao de Innsbruck ele teve que avisar no palco: “I´m not trying to be cool, I just broke my regular glasses!!”, ao que a galera respondia: “It doesn´t matter, you´re looking cool anyway!”.

Partimos sentido Barcelona, onde todxs tinham muitxs amigxs para encontrar e uma noite para viver com eles. A estrada é linda, cheia de construções de pedra muito antigas, alguns castelos, mas a viagem é muito longa. Para completar era um feriado na França, o que nos fez pegar vários trechos de engarrafamento e pedágios que, além de caríssimos, tinham filas quilométricas.

Quando faltavam 100km para Barcelona nosso querido pneu furou e lá fomos nós trocar: macaco pequeno, não conseguia levantar o carro a uma altura suficiente. Procuramos muito uma pedra ou madeira para servir-lhe de apoio, mas nada. Usamos, então, um livro russo e deu tudo certo… Chegamos a Barcelona às 10 da noite, já deseperados pelo atraso enorme, e ainda erramos o caminho: o GPS nos levou à rua programada, em Barcelona, mas o show seria numa rua de mesmo nome numa parte da Grande Barcelona, tipo no ABC de lá. Mais meia hora e chegamos ao local do show, onde nossxs amigxs nos esperavam para começar o show. Chegamos e Las Otras, banda da Ieri, ex-Bulimia, tocou. Foi bom ouvir a voz dela cantando uma vez mais. Depois a Descrença Absoluta, dos nossos amigos mineiros e mais uma banda local cujo nome não lembro agora… Depois do concerto, uma divisão das pessoas, umas foram dormir num lugar e outras em outro. Nos encontraríamos no dia seguinte para caminhar por Barcelona. Ah!, o squat é um antigo prédio do governo, gigante, ocupado há 2 anos, onde ocorrem alguns shows e mora uma galera.


Café da manhã recheado de brasileirxs, amigos de quem gostamos muito. Aproveitamos ao máximo. Caminhada com muita gente pelo parque, mas nenhum espanhol, somente brasileirxs , uma russa e uma portuguesa. Foi ótimo, nos divertimos muito.


Seguimos sentido Girona, ainda com uma trupe de brasileirxs. Lá também encontramos a galera do Suit Side, da Bélgica. Nos sentimos super bem no squat, uma antiga casa de pedra ocupada há 5 anos, com uma bela horta, galera vegana… A renda da comida vendida no dia seria em benefício ao movimento de ocupação dos espaços públicos, o que está rolando em vários lugares do mundo. Tocamos com a Descrença Absoluta e mais uma banda, um bom concerto.

Notamos entre Barcelona e Girona que nossa van começava a perder força. Pensamos que seria a qualidade da gasolina, pois em Barcelona pagamos muito barato por ela.
Nosso próximo show seria na terça, em Brest – França, mais de 1000km distante.  Conseguimos, mais uma vez com a ajuda do pessoal do Chicken´s Call, um lugar para dormir  em Bourdeaux.
Fomos chegando e nos espantando com a beleza da cidade: casas de pedra, ruas estreitas, mar,  um clima gostoso que contagiou todo mundo na nossa van. Procuramos o endereço, nos perdemos, subimos em um prédio muito antigo, que parecia sair de um filme francês sobre algo do começo do século XIX, de pedras e meio torto, não achamos o apartamento do nosso anfitrião e o celular dele não funcionava. Depois soubemos que o celular havia quebrado. A fome apertou, resolvemos procurar algo para comer e fomos achados pelo nosso novo amigo, que nos levou ao apartamento dele e depois a um novo squat na cidade. E que squat, puta merda! O prédio parecia ter sido um hotel, vários quartos e uma cozinha foda, que ainda tinha duas geladeiras, fogão e mesas do antigo proprietário. Lá nos esperava um delicioso macarrão e um bom vinho. Ficamos conversando, tomando vinho. Banho tomado, adormecemos para seguir viagem cedo no dia seguinte. Por querer aproveitar ao máximo, não tiramos fotos.

Seguimos para Brest, uma cidade na região da Bretanha, com costumes e cultura próprios, muito bonita e interessante. Na França, os shows normalmente ocorrem em cafés, e naquele fomos super bem recebidos. De lá fomos à casa de um dos organizadores do show jantar, macarrão de novo. Voltamos ao espaço do show, pois já era tarde e seríamos a única banda. Montamos o equipo, fizemos uma passagem de som rápida e começamos a apresentação, que foi muito energética, animada e com o horário apertado, pois tínhamos que parar às 22h: assim fizemos, mas deu tempo até para um bis.
Depois ficamos conversando muito com várias pessoas, com o dono do bar que nos oferecia shots de Jack Daniels e bons chopes, claro bem bebidos e agradecidos. Depois ainda teve jogo de bocha na praça com a galera local.

Dormirmos na casa de uma galera que estava viajando e no dia seguinte fomos conhecer um pouco mais da cidade, ver o mar… e seguir para Rennes, uma cidade também muito bonita com construções de palha e terra, algumas do século XIII, casinhas tortas de madeira, mais uma vez como um cenário de um filme de época, muito bonita e aconchegante. Mais uma vez nosso show seria num café, também de palha e terra, muito legal. Tocamos com uma banda local e com uma banda do País Basco.

Acordamos cedo mais uma vez para seguir viagem, desta vez já indo sentido Bélgica, mas com mais um show no norte da França, numa cidade chamada Carvin. Antes, em outras cidades, sempre que nos perguntavam onde mais iríamos tocar e respondíamos Carvin entre outras, ninguém nunca tinha ouvido falar dela e, chegando lá, entendemos o porquê: a cidade é muito pequena, cresceu de uma vila de trabalhadores das minas de carvão locais e os moradores são todos descendentes de mineradores. Ainda é comum ver pilhas de carvão abandonadas em um canto ou outro da região. Nenhuma pessoa envolvida com o show falava inglês ou espanhol; não conseguimos nos relacionar direito com a galera no quesito fala, mas o clima estava legal e o show foi animado. O organizador é de um do selos que lançou o nosso disco e estava muito feliz por receber os discos e ver nosso show.

Por fim, seguimos para Gent, Bélgica. Chegamos cedo, ainda na parte da manhã, afinal, em Carvin não havia muito o que fazer, nem dar rolê nem conversar. Acordamos o pessoal do squat em que iríamos tocar. Dois prédios muito grandes que eram os escritórios de finanças da cidade, sem energia, sem água, tudo muito difícil, mas com muita força de vontade. Logo fomos a um outro prédio bem perto, onde morava outra galera. Eram uns prédios pequenos, tipo uma vilazinha, às margens de um canal. Fomos muito bem recebidos pela galera do Freedon in Fire Collective, uma galera anarcopunk das mais ativas: eram elxs os organizadores do evento. Avisaram-nos que parte da grana seria em benefício a uma galera que estava presa devido a uma manifestação em outra cidade. Após o café nos separamos em grupos, cada um tinha vontade de fazer algo na cidade e assim foi, vimos castelos, igrejas antigas, muros com 900 anos, e muita das historias que só conheciamos de filmes; também descobrimos que a Bélgica não é, em matéria de preço, um bom lugar para frequentar restaurantes. A cidade é bem aconchegante, tranquila, vários rios, uma diversidade cultural muito legal. Voltamos para o squat, cujo palco dividiríamos com mais 5 bandas. Lá havia um gerador ligado, fornecendo energia para a parafernália de som, o qual também ligava uma pequena bomba que fazia com que houvesse água em alguns lugares do prédio.

Sobre o show, muitxs de nós não conseguimos ver direito as outras bandas porque o local era fechado e todas as pessoas lá fumavam. Foi realmente um show com uma galera super legal mas insuportável para quem necessita de oxigênio. Por termos nos acostumado ao Brasil, onde as pessoas não jogam mais fumaça na sua cara em locais fechados, a situação daquele concerto foi, por muito tempo, algo que não compreendíamos, gerando até muito nervosismo em alguns de nós e impossibilidade de ficar no local para outrxs…

Estávamos muito ansiosos para irmos a Amsterdam. Deixamos Gent o mais rápido possível, mas nossa van, que já não vinha bem, resolveu ficar pior, sua velocidade era baixa e não tinha força. Não sabíamos ao certo o que era, chutávamos vários problemas, mas tínhamos a linguagem como um problema maior (quem sabe nomes de peças automobilísticas? Como dizer rebimboca da parafuseta em inglês?) e a incapacidade de nos entendermos aumentava em situações que precisávamos agir coletivamente.

Chegamos a Amsterdam meio tarde, já decididos a arrumar o carro. Ficamos a noite quase inteira conversando, fazendo reuniões, nos desentendendo para decidir o que faríamos no dia seguinte, acabamos aproveitando muito pouco do nosso show, mas decidimos o que iríamos fazer no dia seguinte.
Tocamos com os amigos do Veda Side, da Bélgica e com uma banda chamada Total Disorder, de Israel, banda punk bem legal, que nos impressionou um pouco.

Encontramos velhos  amigos e isso foi o melhor momento da nossa passagem por lá. No dia seguinte, acordamos prontos para fazer tudo que tínhamos combinado, alguns iam andar pela cidade, mas tudo que passamos a noite inteira conversando e discutindo foi mudado. Novas conversas, tensões entre o grupo e resolvemos seguir até o próximo show, que ficava próximo a Amsterdam, um squat chamado Pirate Bar, um grande galpão na região do porto que já funciona há uns anos. Toda a estrutura interna foi construída pela galera de lá, pois quando entraram no lugar ele era apenas um grande galpão sem nada dentro. Divisórias foram feitas e agora há sala de concertos, estúdio, serralheria, oficina de bikes. O local é incrível. Há ainda um café vegano, com a cozinha mais organizada e a maior geladeira do rolê.

Tocamos com as mesmas bandas da noite anterior e isso nos deixou felizes, pelo menos até a hora de dormir, coisa que nem todxs conseguiram, pois a galera resolveu fazer festa do lado do dormitório ou em cima dos beliches… Foi uma total disorder que os israelenses aprontaram. Presepadas à parte, sobrevivemos e seguimos para nossa próxima cidade, para outro concerto e quem sabe o conserto do nosso carro, cujo problema nem sabíamos ainda qual era, pois mecânicos e mecânicos avaliavam e cada um tinha uma opinião.

Chegamos em Osnabrück, de novo na Alemanha. O organizador do show nos esperava às 10 da manha para levar o carro a um mecânico. Nos deu a chave do Ajz, um centro social que era ocupado e que agora tem permissão, muito organizado, com uma cozinha incrível, bar, internet wi-fi, foda… Saímos para comprar algumas coisas para fazer um almoço, andamos pela cidade, supermercado e voltamos.
Infelizmente nossa van não ia ficar pronta ali, precisaríamos resolver: tínhamos compromissos, shows, inclusive o do Neurosis, ao qual queríamos ir e uma van para arrumar. Ao menos já sabíamos o que era: a maldita embreagem. Compramos as peças, só precisávamos de um mecânico e um tempo para fazer isso.

A noite, chegou o pessoal da banda Eastfield, uma banda inglesa no melhor estilo punk inglês, punk rock clássico, bem tocado, empolgante e o melhor: cheio de punks simpáticos, gordinhos, tiozinhos e muito legais. O show deles foi contagiante e para uma segunda feira, o show estava bem cheio, umas 60 pessoas… Depois deles tocamos e foi um dos nossos melhores shows. Estávamos empolgados pelo bom punk inglês.

Acordamos cedinho, café da manhã e fomos para Köln. Na cidade vimos, passando de carro, a Music Store, uma loja gigante que tem muita coisa, tudo muito barato. Um dos planos era em algum momento livre ir ate lá e o fizemos. Deixamos todo nosso equipo no Ajz, um prédio enorme ocupado onde a galera faz os eventos, fomos para a casa onde iríamos dormir por dois dias, pois tínhamos o show do Neurosis no dia seguinte, em Dortmund, a uma hora de trem de Köln.

À noite voltamos para a ocupa, onde tocamos com as meninas da Beyond Pink, uma banda da Suécia com um som foda, um visu muito louco e que tocaram um cover de Beyoncé!! Nosso show foi meio morno, estávamos tensos por conta da van.

Dia seguinte rolês pela cidade, que também é muito legal, bem antiga, Music Store e, à noite, show do Neurosis. Como nossa van não tinha ficado pronta, fomos de trem mesmo. E esse monte de brasileirxs, tentando pegar trem na Alemanha foi uma loucura: pergunta aqui, pergunta acolá… compramos os bilhetes que falaram para a gente comprar e lá fomos nós… Chegamos cedo ao local, entramos e vimos o show que todxs esperavam ansiosos. O show é muito bom, impressionante o que esses velhos punks fazem, valeu a ida até lá. O Paulo ficou rouco e todxs nós um pouco mais surdxs.

O show terminou cedo, tínhamos tempo de pegar o trem, mas que trem? O sistema de orientação das estações não é nada prático para quem não sabe alemão, e dois guardinhas nos indicaram um que seguiria até determinada estação, onde faríamos baldeação para Köln. Depois de 40 minutos de viajem, chegamos à tal estação: procuramos a plataforma onde o trem passaria e vimos que esperaríamos mais uma hora. Depois dessa hora de espera, o trem que chegou era de primeira classe. Tentamos nos informar com o cobrador que estava na porta do trem se nossos tíquetes valiam e ele só nos mandou entrar. Sentamos no vagão chique, meio espantadxs e lá ficamos por cinco minutos, até que o fiscal/cobrador apareceu de novo, com uma maquininha de cartões na mão; viu nosso tíquete, disse o óbvio, que ele não valia ali e começou a calcular quanto devíamos pela viagem, uns € 300,00. Moral da história: desenbarcamos na estação seguinte, esperamos por mais uma hora, mais ou menos, e embarcamos em outro trem, esse de segunda classe – claro que o tíquete não servia para esse também, mas nele ninguém nos incomodou. Mais uma hora e estávamos no centro de Köln, mas o metrô estava fechado. Saímos em frente à catedral da cidade, gigantíssima, 160mts de altura, imponente. Seguimos nossa caminhada até a casa de nossxs amigxs, a pé, mas essa foi uma das partes mais divertidas da volta.

Dia seguinte tínhamos um show em uma cidade cuja galera já conhecíamos, pertinho de Wedland. Tocaríamos com Visions of War e todo mundo falava que essa galera é super gente boa… estávamos  ansiosos, mas nossa van não estava pronta e já estávamos no terceiro dia de mecânica… perdemos o show e o encontro com nossxs amigxs, triste.

Nossa van só ficou pronta na sexta e seguimos viagem com ela agora, turbinada, hehehe… novinha em folha.

Chegamos a um povoado, chamado Lutter, pequeno, uma ou duas ruas e facilmente achamos o local, mesmo sem endereço: um castelo construído no ano 1000, que era usado para a construção de ferraduras e escudos nas guerras, com direito a torre, fosso ao redor do castelo. O local esteve em inúmeras guerras, foi de diversas famílias ricas, mas acabou ficando abandonado e uma galera punk/anarquista, em 1980, comprou o que sobrou das construções… o coletivo, que tinha 30 pessoas, já no primeiro dia sofreu baixas: ficaram apenas 7 e, depois, somente 2, xs quais começaram a  reconstruir parte dos telhados, algumas paredes… hoje está quase tudo reconstruído e funciona coletivamente. Há, hoje, um grupo de 7 pessoas que vivem do suco da maçã, pães, um infoshop, silkscreen…

Rolava, então, uma semana de discussão de gênero: um acampamento de uma semana com diversas atividades relacionadas a sexualidade, gênero, organização. Muitas barracas, crianças para todos os lados, árvores, o clima era contagiante…

Fizemos um tour pelas construções ouvindo a história do lugar, os planos e, mais à noite tocamos; após o show, disco party.

Acordamos descansados e seguimos sentido Bielfield, uma viagem tranquila… o show seria no Ajz, outra ex-casa ocupada que agora tem contrato e permissão para funcionar como centro social… O clima foi foda, muitas conversas durante o jantar, inspirador para nosso show. O show foi um pouco vazio, pois havia um festival enorme e gratuito na cidade, mas mesmo assim foi bem divertido.

Dia seguinte era nosso último show, em Berlin mais uma vez. Os sentimentos se misturavam na van, alguns tranquilxs pelo fim da tour, outrxs tranquilxs mesmo com o fim da tour, outrxs tristes por estar acabando. Fizemos uma análise geral, na qual todxs falaram sobre suas opiniões e votaram: a pior comida, a melhor comida, a pior banda, a melhor banda, o melhor espaço, o pior espaço, a pior pessoa, a melhor pessoa, o sentimento geral da tour e nesse momento; para alguns veio muito forte a lembrança do Mudinho, e isso se perpetuou o resto do dia… Análises, diferenças, ouvir dx outrx o que achava de tudo e pensar que tínhamos conseguido passar por aquilo, não como um pesar, mas como um desafio… e como um de nós sempre falava: a liberdade é difícil.

Uma coisa que ficou muito marcada para alguns foi a quantidade de casas ocupadas ou centros sociais onde a galera mantém vivo tudo que gosta, shows, dias de comida vegana, bar, encontros, teatro, cinema, oficina de bike, vans transformadas em casas… e tudo dentro de uma rede de apoio ao punk, ao faça você mesmo.

Chegamos ao Sharny, uma ocupa legalizada em Berlin. Esse show estava sendo organizado por amigas que nos haviam visitado no Brasil e foi muito bom revê-las, fazer coisas juntos. Fizemos um bate papo sobre o Brasil, sobre o Espaço Impróprio, sobre desejos e vontades e depois tocamos, um show emocionante com a participação de todxs brasileirxs que estavam viajando; não havia muitas pessoas, mas, ali onde se encerrava o plano, pessoas importantes e algumas vitais para que a tour acontecesse puderam celebrar juntas e trocar o carinho da saudade antecipada.

Fim do show, tínhamos combinado de ajudar a galera da organização a desmontar, levar equipamento a diversos lugares e assim fizemos: carregar caixas pesadas, subir escadas, descer escadas, mas estávamos felizes, fazíamos parte do que sempre fazemos no Brasil: organizar eventos; não estávamos como uma banda que chega e pergunta “onde plugo meu cabo” e vai embora… nos sentimos bem e alguns de nós até pensaram que, se em todos os shows fosse assim, entenderíamos mais como as coisas funcionam em cada parte desta Europa punk que rondamos e rodamos nestes 44 dias, pois chegar, comer e tocar era fácil, mas queríamos mais, por que é  assim que acreditamos, que somos: queríamos saber como funcionava cada lugar, o que poderíamos fazer para ajudar, construir… buscar também inspiração para seguir fazendo tudo de que gostamos,  sabendo que em todo canto em que pensarmos haverá alguém carregando uma caixa de som, fazendo um cartaz, cozinhando, escrevendo zines, se revoltando, remando para um lado que pode ser o mais difícil… mas onde é fácil? Ser bem sucedido na vida vai além do que podemos comprar, ser bem sucedido é conseguir, mesmo que dificilmente, como é difícil a liberdade, fazer as coisas de que realmente gostamos.


e Viena nos aguardava…

Saimos da região de Wedland sentido Leipzig. Claro que no caminho fomos conversando ainda sobre o que tínhamos vivenciado com todos e todas. Dois de nós já tinhamos estado no Zoro – um squat em Leipzig e contamos um pouco de como era o squat para os outros. O Zoro está num quarteirão onde há mais sete prédios ocupados e nosso show seria num deles, o Liwi.

No caminho, conversamos também sobre outros assuntos, dentre eles, claro, comida. A Xenia nos disse então que Leipzig é famosa pela comida das bandas. Uma garota, que era inclusive vocalista da banda Provoked, é uma grande chef e tem um restaurante na cidade, ao lado do Zoro e, quando o show é lá, ela cozinha. Mas o show não era. Chegamos ao espaço, as duas bandas que tocariam conosco, uma finlandesa e outra canadense, que viajavam juntas, já estavam no local e subimos para o jantar. Logo soubemos que a van deles foi apreendida pela polícia, pois era roubada e eles não sabiam. Estavam sem van e sem backline (por alguma razão, não estava mais com ele), mas, pelo menos, tinham apenas mais um show na tour.

Conhecemos o espaço de shows (um típico bar com palco) e o cara que ajudava na organização, e que inclusive fez a comida. Ele não tinha cara de ter muita experiência culinária: uns dezoito anos, no máximo, cabelo nos ombros, uma bandana na testa e um colete jeans. Mas aparência não é nada. Enquanto conversávamos, subimos a escada para comer, o jantar estava pronto e, de longe sentíamos um cheiro muito bom. Esfregávamos as mãos!! Então notamos: o cheiro vinha de uma frigideira com um punhado de cubos de tofu defumado frito… devia ter uns dez cubinhos de meio centímetro cúbico para cada. Notamos, então, que comida seria macarrão, rotineiro cardápio em tours pela europa (começamos cantar, como das outras vezes: “o intervalo tem cheirim de macarrão, e a barriguis, ronca mais do que um leãozis…”). Até aí tudo bem, poderia ser macarrão, a gente gosta e, se fica uma semana sem até sente falta. Mas estamos falando de macarrão, não daquilo. Estava horrível, sem gosto: uma massaroca grudada com margarina e umas ervas, provavelmente uma salsinha congelada que vendem em caixinhas; um bolo de macarrão. Jogamos os cubinhos de tofu em cima, sorrimos, agradecemos ao garoto e engolimos a parada. Mas, mesmo com  fome, o prato estava indigesto.

Hora do show, montamos tudo, pois seríamos a primeira banda. As outras duas bandas nos pediram os amplis de guitarra e baixo emprestados, tudo bem, essa não seria primeira vez que emprestamos algo aqui na Europa, e no Brasil dividir equipamento já é quase automático. Sem problemas. Tocamos para uma galera mais voltada ao grind e ao fastcore e mesmo assim, vendemos alguns discos e muitas pessoas vieram conversar conosco sobre nosso show, que foi mesmo bom.

Ao fim do nosso show procuramos algum lugar para comer, pois o macarrão indigesto não saciou nossa fome e muito menos nosso desejo por comida saborosa. Fomos a um café da galera punk, o Lazy dog, mas infelizmente, não tinha mais comida (servem vários tipos de cachorro-quente vegan lá) e caimos no pão com presunto de soja e creminhos. O Paulo comprou um caviar vegan e achou ok, mas não tudo isso. Voltamos ao espaço e ouvimos uma das piores bandas de toda a tour tocando: uma distorção horrível de metal zone, mal regulada, ainda. Vimos que nosso ampli de guitarra não estava funcionando e já nos preocupamos. Esperamos a banda acabar o freaking show e fomos ver o que tinha acontecido: sim, nosso ampli de guitarra não funcionava mais. O Paulo nunca ouviu tantos “I’m sorry, man”; o cara era atencioso e tentou ser solícito, ajudou a carregar equipamento e tudo… ele era gente boa, mas atrapalhado e, como músico, um ótimo qualquer outra coisa. Tentamos fazer funcionar e vimos que o fusível tinha queimado, ou seja, nem tão problemático assim. Colocamos-no de lado e outro foi providenciado para outra banda totalmente inaudível subir ao palco. Por fim, nos restou esperar, retirar todo o equipamento e ir dormir no Zoro, onde também achamos antigas pichações da tour da Execradores. A Xenia e o Paulo ainda voltaram ao Liwi para mais uma cerveja, onde ouviram do mesmo cara com quem o ampli quebrou uma entediante conversa de como a cena canadense é ruim para ele. No dia seguinte, acordamos, fizemos o café  da manhã, saímos para comprar o fusível e seguimos viagem, sentido Viena.

Chegamos lá super tarde pois tínhamos saído atrazados de Leipzig. Nosso anfitrião, o Andy, nos esperava, nos apresentou o squat EKH, que foi ocupado há 20 anos e que agora tem um contrato com a prefeitura. O lugar é um prédio de vários andares, com muitas portas de ferro pesado, sempre trancadas. Apresentou-nos o lugar de dormir, o banheiro com banheira e nos deu a senha da internet. Dormimos com a intenção de acordar cedo e caminhar pela cidade. Assim fizemos, acordamos e saímos até mesmo sem tomar café da manhã. Mapa da cidade na mão, pegamos oTram – o bondinho – e fomos a um antigo cemitério da cidade, com os túmulos de Mozart, Bethoven, Schubert, Strauss e Schöenberg; havia um setor judaico, o qual foi bombardeado durante a segunda guerra mundial.

Saímos de lá para o centro da cidade, fomos à igreja de St. Stephan, que tem uma arquitetura incrível e assustadora e depois fomos até o tradicional parque de diversão na cidade, onde se encontra a famosa Giant Ferris Wheel. Para quem não sabe, é uma das mais antigas rodas gigantes do mundo, que sobreviveu a incêncios e bombardeios das duas grandes guerras mundiais (e, segundo o Renato, foi onde Celine e Jesse deram seu primeiro beijo no filme “Antes do Amanhecer”). No entanto, o brinquedo que nos pareceu mais atrativo era uma espécie de kamikazi  de duas pontas, muito alto, mas menor em número de assentos: sentam-se quatro pessoas de cada lado (cada parelha fica de costas para a outra), com as pernas penduradas. A geringonça é tão alta que proporciona uma bela vista panorâmica do horizonte de Viena. Pandora, Renato, Isaac e Paulo encararam o passeio, que além da vista oferece uma bela sensação de como agem as forças de inércia, a energia centrífuga e a centrípeda. Em outras palavras o bagulho fica te rodando até você perder a noção de em cima ou embaixo e, em suma, é do caralho.

Voltamos ao EKH para descansar um pouco, passar o som, montar a banquinha e comer. Dessa vez congratulamos o chef: serviram-nos uma salada de feijão muito bem temperada e um fantástico assado: espinafre e batatas, também muito bem temperados, como recheio de uma massa folhada feita lá mesmo: um crocantezinho que derrete na boca, coisa fina.
Uma banda projeto da galera do EKH tocou, todos vestindo roupas brancas semi bizarras, uma vocalista que parecia uma enfermeira de filme de zumbi e tals. Depois tocamos, ficamos conversando com a galera e alguns de nós fomos descansar, pois no dia seguinte teríamos uma longa viagem até Praga.

Mas a noite ainda guardava umas surpresas para alguns de nossos amigos. Depois do show, duas garotas brasileiras, Natália e Nicole, se aproximaram do palco e se apresentaram como amigas de amigos brasileiros que tinham ficado sabendo do show através deles. Estavam viajando por vários países na Europa e coincidentemente foram parar em Viena. Conversamos um pouco e cogitamos dar uma volta pela cidade. Renato, nosso baterista, foi tomar banho. Um procedimento comum (e cada vez mais raro) mas que parece ter aberto as portas para alguma antiga maldição vienense que o perseguiu pelo resto de sua estadia na cidade. Ainda no quarto, percebeu que havia perdido sua sacola com todas as cuecas e meias. Tudo, bem, ainda tinha a cueca que estava usando, uma limpa e uma suja. Lavando todo dia uma durante o banho e não perdendo mais nenhuma ficaria tudo bem. Já no banheiro, encarou o clássico desafio de um banho na Europa: nenhum box ou chuveiro fixo, apenas uma banheira com uma grande cortina, uma ducha solta que você tem que segurar com uma mão enquanto se esfrega com a outra e a aparentemente simples torneira onde você equilibra água quente e fria. Bom, para começar, a água quente resolveu não comparecer e a solução foi um banho glacial no estilo tortura medieval. Para compensar a perda de calor, nosso herói tentou tomar banho um pouco agachado. Mas o destino o esperava com muito mais frieza e astúcia. Na reta final do seu enxágue, um passo em falso sobre a longa cortina que descia até o fundo da banheira tirou seu equilíbrio. Tentou sentar na beirada da banheira (que era um pouco mais alta que o comum), mas acabou grudando todo o corpo na cortina e rolando para fora direto para o chão ao som das presilhas arrebentando. Ficou por lá alguns minutos nu, sobre a cortina pensando se valia a pena se levantar e levar a vida a diante. No entanto, resolveu ir em frente.

Se juntou a Isaac e Paulo conversando no espaço de show com as novas amigas brasileiras. O papo se estendeu pela noite no bar do squat até que os cinco resolveram dar um último passeio pela cidade. Um pequeno lanche às margens do Rio Danúbio e se despediram de suas amigas que tinham que voltar para casa. Já estava quase amanhecendo e os três decidiram ver a chegada do sol e esperar por uma Julie Delpy.  E para quebrar astral, Paulo tomou e atirou no rio uma das moedas da coleção do Renato, o que pareceu deixar os deuses vienenses ainda mais zangados. Segundo o Paulo, a moeda foi uma oferenda pela felicidade e beleza na vida do Renato.

Ao voltarem para o squat, descobriram que a chave que tinham só abria a entrada e não a porta que dava acesso ao andar dos quartos. O jeito foi dormir nas escadas. Mas o deuses dos banheiros vienenses ainda estavam acordados. Renato, que ainda sentia a dor do tombo da noite anterior, foi acometido por uma urgente movimentação intestinal que clamava por um lugar para despejar sua fúria. Após subir e descer os andares acessíveis do prédio, voltou até os degraus onde seus amigos dormiam e disse que não encontrou nenhuma porta que levasse a um banheiro. Paulo disse para ficar feliz se encontrasse uma sacola. Mas a vida, essa sim, é uma caixinha de surpresas. Nosso herói desceu a até o subsolo buscando um lugar mais reservado coletando tudo o que julgava ser útil e o saldo foi: quatro cartazes de show, um prato, uma bacia e uma pá. A emoção foi tanta que seus intestinos vibraram e emoção, não dando tempo nem mesmo para que tirasse o tenis e a calça. A solução foi tentar uma manobra sem muita visibilidade. Usando toda a sua habilidade permacultural, construiu um mini-banheiro-seco-portátil. A pá recebe os sólidos, a bacia os líquidos, o papel (depois de amassado e desamassado para aumentar sua maciez) pode servir de papel higiênico e mais tarde de embrulho. Só esperamos que a lata de lixo seja esvaziada por aqueles caminhões automáticos e não pela mão de algum pobre diabo.

Depois dessa magnífica noite em Viena, principalmente para  Renato, acordamos, tomamos um belo café da manhã e seguimos viagem para o Leste Europeu: Praga, Croácia e Eslovenia.


Wedland

Resolvemos dedicar um post apenas para Wedland, um povoado a 3 horas de distância de Berlim. O motivo? Primeiro porque até então foi o lugar que mais nos inspirou e, porque com certeza, temos muita coisa pra contar. Sabemos que um post não será suficiente para descrevermos tudo que sentimos e conhecemos por lá, então, quando chegarmos em São Paulo, podemos conversar e contar cada momento e cada história que ouvimos.

Wedland é como um vilareijo, formado por casas de vila, fazendas e muita natureza. O pequeno povoado sofre todos os anos porque o lixo radioativo de muitas usinas é levado todos os anos de trem e depositado em uma área na comunidade. Durante este período (meados de setembro), moradores e fazendeiros planejam táticas para impedir a chegada deste lixo. A resistência é forte e todos são muito unidos para conseguir a todo custo barrar o lixo que põe em risco, de forma terrível, a água, a terra, o ar, os animais e a vida dessas pessoas. São feitas muitas coisas para impedir a chegada do lixo, desde manifestações até atos mais radicais, como prender um carro na linha do trem com pessoas dentro para barrar a chegada do trem.

Chegamos ao local do show, um espaço auto gerido pelos moradores da comunidade.  Não estávamos esperando muitas pessoas, afinal um show punk em uma área “rural” e longe dos grandes centros estava sendo algo novo para nós. Mas logo de início fomos muito bem recebidos pelas pessoas que estavam organizando o show e a cada minuto que passava, nós víamos em cada expressão a felicidade exalando de dentro daquelas pessoas com a nossa chegada.

Para nossa surpresa, encontramos uma brasileira chamada Ellen, que estava passando um tempo na fazenda do pessoal que organizou o show. Durante a conversa, as histórias que Ellen nos contava sobre a fazenda, sobre como as pessoas se organizam e vivem, nos contagiavam e inspiravam. Ellen começou a contar sobre a fazenda. Nela moram 10 pessoas. Eles plantam (hortas), produzem pão, suco de maça, queijo, vinho, vinagre, leite e manteiga. Tudo que é produzido na fazenda é para o sustento das pessoas que ali vivem. Algumas das coisas, como o suco de maçã, o pão e o queijo são trocados por outras coisas, que não podem ser ou não são produzidas na fazenda; usualmente, as trocas são com as pessoas da própria comunidade de Wendland. A fábrica de suco de maçã tem toda sua eletricidade gerada por energia solar. A água quente por aquecimento a lenha, a partir de um forno gigante do lado de fora da casa; o saneamento é feito com filtros de plantas e depois a água limpa é jogada em um lago. Algumas pessoas da fazenda trabalham fora e recebem dinheiro. Todo ele, mais o dinheiro da produção excedente da fazenda é destinado a uma caixinha a que todos têm acesso, sendo dividido igualmente entre todos. O dinheiro é o que menos tem valor: primeiro tudo é feito à base de trocas, e algo é comprado somente quando realmente necessário. Se precisam de algo que não possuem, primeiro procuram ver se pessoas da comunidade possui tal coisa para emprestar ou trocar e, caso não, procuram primeiro por produtos usados. Até a internet da fazenda é paga por meio de escambo: o técnico recebe em suco de maçã e queijo.

A fazenda já existe há 20 anos e nunca houve problemas com divisão de dinheiro ou qualquer outro tipo de briga relacionada a isso. Autonomia é a melhor palavra que encontramos para definir a fazenda e a vida das pessoas que vivem ali. O dinheiro é um mero detalhe para quem quer comprar um vinil da banda que mais gosta.

E toda essa história foi nos contagiando e nos inspirando para fazer o show. A cada minuto mais e mais pessoas chegavam. Verdade! O lugar lotou de gente e nós éramos a única banda da noite. Nem precisamos falar do show, nosso melhor show, desde a energia das pessoas, o som e nossa execução.  Com direito a voltar para o palco duas vezes, pois as pessoas não deixavam a gente parar de tocar.
Depois de passar por diversas cidades grandes, squats, cafés vegan, encontramos algo simples, mas que nos inspirou por completo. Comemos comida orgânica, sucos, pães, frutas vermelhas, vegetais, muitas coisas boas, produzidas e oferecidas por pessoas cujas caras conhecemos e para as quais pudemos sorrir de volta.

No dia seguinte, claro, não podíamos ficar sem conhecer a fazenda pessoalmente. Acordamos e seguimos para lá. Uma tour de duas horas, na qual cada parte da fazenda nos foi apresentada: a fabrica de pão – o Paulo nao resistiu e meteu a mão na massa – e a de suco, as hortas maravilhosas e cheias de vida, o pomar de macieiras, nas plantações de berries, o sistema de captação de energia solar e o de aquecimento d’água, o saneamento ecológico, a casa e os vagões para visitantes…

Mas, enfim, já era hora de seguirmos viagem para Leipzig, ainda na Alemanha. Antes de seguirmos, entretanto, devíamos consertar a ignição do carro, de desde o dia da nossa chegada não funcionava e nos obrigava a empurrar a van, fazendo-a pegar no tranco. O pessoal nos mandou então para uns conhecidos que têm uma mecânica, pessoas que também foram ao show na noite anterior e que fizeram todo o serviço de graça, com um sorriso no rosto. A melhor notícia, porém, foi o convite para mais dois shows na região mais para o final da tour nos dias 28 e 29 de julho. Assim, a despedida ficou menos dolorosa e poderemos reencontrar as pessoas e vivenciar todo este sentimento novamente.


Alemanha!

Tem sido difícil manter esse blog como um diário pela falta de oportunidade de juntar tempo disponível, internet, computador e memória em um mesmo lugar. Mas a vontade de compartilhar e a cobrança da família, dos amigos e amigas nos motivam a tentar achar uma forma de juntar tudo isso.

Para começar, precisamos atualizar a última frase do post anterior que diz que o próximo show seria em Rostock, Alemanha. Na verdade passamos em Flensburg, uma cidade a caminho de Rostock bastante antiga, com casas do século XIV, para dormir uma noite e continuar a viagem no dia seguinte. Ficamos no espaço Hafermarkt (foto abaixo), uma casa ocupada há 20 anos, na qual não conseguíramos marcar um evento enquanto preparávamos a tour. Mas logo na primeira noite, uma quarta-feira, fomos convidados para um show surpresa na sexta-feira, primeiro de julho. Convites pela internet. Andando pelas rua da cidade com um amigo local, o Ronan, cruzamos com um conhecido dele que tem uma banda. O convite foi feito e aceito. Pronto: um show com duas bandas e uma casa relativamente cheia para nossas expectativas. Para quem não tem nada, a metade é o dobro, certo? E foi muito legal poder passar mais dois dias nesse espaço, conhecer a cidade, seu falafel, instrumentos vintage e festas onde pudemos entrar de penetra depois do show. Mas devíamos ter tido mais cuidado para não perder o celular ao pular a cerca.

Dia seguinte, voltamos ao local do crime, resgatamos o celular viking e partimos finalmente para Rostock, onde os amigos Rui (que, para quem não sabe é brasileiro e tocou nas lendárias Abuso Sonoro e Necrorrosion) e Maren nos esperavam. Um sábado chuvoso e um show muito animado, rápido e quase sem tempo para respirar no porão de um prédio que um dia já foi um squat e hoje é um desses centros culturais legalizados. Algo muito comum na Alemanha. Dormimos em um outro centro cultural, o JAZ no qual nosso casal amigo está envolvido. Um lugar bacana num cantinho mais distante da cidade e com uma decoração bizarra, com um míssel na porta, grafites, esculturas medonhas etc. Depois de um maravilhoso jantar capotamos para sair cedo de manhã. Acordamos, café da manhã com direito a conhecer as gêmeas, filhotas do Rui e da Maren, lindas, cuti cuti.

De volta à estrada para a próxima parada: Berlim! O show foi num dos espaços do Köpi (foto abaixo), uma das maiores ocupações de Berlim e da Alemanha. O prédio é um antigo hotel de luxo do início do século XX que sobreviveu a duas guerras mundiais e a todo o período de guerra fria. A parte da frente, que contava com uma entrada, um chafariz, onde carrões faziam uma voltinha para entrar, e algumas paredes foram destruídas por bombardeios, mas a estrutura principal está bem inteira. O primeiro andar do prédio conta com um bar beeeem punk, uma cozinha grande e bem montada, alojamento para bandas e visitantes e também um grande espaço pra shows, que por sinal é muito bem equipado e conta também com um projetor. Foi lá, inclusive, que exibimos um pequeno vídeo, produzido pela Marina Knup e pelo Joaquim, sobre o fim do Espaço Impróprio. Depois, um debate e uma troca de experiências sobre a criação e a manutenção de espaços libertários em grande centros urbanos. Mas no fim o debate foi se desdobrando em grandes trocas de contextos e experiências como os que sempre têm enriquecido nossa viagem até então e nos inspirado bastante.

Tocamos no Koma F, um outro palco menor, no porão do Köpi. Um espaço menor e mais eficiente para receber a sensualidade do punk brasileiro. Ouvimos dizer que originalmente ele era um bunker anti-bombardeio. Parece que funcionou bem. O show foi bem energético e dividimos o palco com uma banda da China, chamada Fan Zui Xiang Fa. Estava nos planos a participação de uma banda russa também, a Komatoz. Assim, faltaria só uma banda da Índia para ser um show só com membros do BRIC. Mas os russos foram barrados na saída de seu país e tiveram que adiar sua tour.

No curto espaço de tempo entre a atividade sobre o Impróprio e o início do show, escapamos para uma outra ocupação, chamada Cafe Morgenrot, onde estava pra acontecer o show da banda The Estranged, de Portland. A ansiedade de ver esse show era muito grande e saímos correndo pelas ruas de Berlim para chegar a tempo de ver o show. O lugar é muito interessante, pois nunca imaginaríamos um lugar como aquele ser uma Ocupação. A entrada, um cafe punk de primeira e muito bom gosto e o show num porão no melhor estilo Punk. Foi foda poder ver uma banda da qual gostamos e tiramos muita inspiração e que nos lembra vários momentos em que ouvimos suas canções junto a pessoas queridas.

De volta ao Köpi, encontramos finalmente os nossos vinis (que o Paulo foi buscar na casa da Marina Pandeló, que deu a moh força – as caixas eram beeeeem pesadas -, recebendo-os, guardando-os, postando fotos dele enquanto não chegávamos lá e traduzindo as letras para o inglês. No tempo que passou lá o Paulo perdeu o show, mas matou as saudades e conheceu em primeira mão o Vux Café, comandado com extrema habilidade pelo Arilson, eterno Abuso Sonoro) e ficamos mais felizes ainda por ver o resultado e por tê-los disponíveis para distribuir. Foi um show muito enérgico pela emoção de ter tudo isso reunido, mais as boas lembranças de nosso amigo Mudinho que vieram à tona quando lemos novamente todo o encarte do disco, que foi em sua homenagem. Tocamos todo nosso set, que não é tão grande assim, e vimos uma galera dançando. No final, repetimos mais duas músicas atendendo o pedido de “bis” da galera que já estava contagiada.

Depois do show, tivemos dois dias para andar por Berlim atrás de outros espaços libertários, conhecer as lojas anti-fascistas (pode acreditar) lojas de discos, instrumentos, conhecer as vistas, o muro e a história da cidade. Visitamos alguns museus, destroços do Prédio da Gestapo, o monumento sobre o holocausto, com a ajuda de nossa motorista pessoal e atual residente da cidade.

Partimos agora para as semanas mais corridas da tour. Show todos os dias e muitas coisas para contar. Próximo show em um povoado distante da cidade chamada Wendland. Em breve um história bastante inspiradora deste lugar.

Muro de Berlim

Monumento às vítimas do Holocausto

Onde Hitler deu seu maior discurso


Da Suécia para a Dinamarca

Depois de brincar de tetris mais uma vez com as bagagens, instrumentos e os novos equipamentos que chegaram para o primeiro show, entramos na van rumo ao interior da Suécia para aproveitar os dias livres antes da nossa segunda apresentação. Passamos alguns dias na casa de amigos de nossa amiga (agora nossos também) e motorista em três diferentes vilarejos.

A primeira parada foi na vila de Jädraas, onde moram Emma, Zam e Jessica, Magnus e seu banjo e ainda três cachorros – dois dos quais são uns dos maiores que já vimos. Fomos muito bem recebidos pelo pessoal que pareceu muito animado e recepitivo com nossa visita, afinal, lá vivem por volta de 250 pessoas. Logo na primeira noite, fomos convidados a ir tomar um banho no lago mais próximo (aquele que consta na última foto do post anterior). Sem saber o frio que nos esperava, alguns de nós se atiraram nas águas geladas do verão sueco. Mas como fomos treinados no Rio Juquiá, suportamos bem as condições do ambiente.

Os dias que se seguiram foram também muito bem aproveitados, com conversas, passeios a pé e de bike pela região. Fomos a outros lagos e rios nadar guiados pelos moradores e seus dois cães – algo que soa muito familiar para nós. A casa do pessoal era enorme pois, no início do século XX, foi um alojamento para famílias de trabalhadores de uma fábrica perto da vila. Hoje a fábrica está abandonada e se tornou um ponto turístico da região.

Saindo de lá fomos para a vila de Lycka, na casa do casal Katja e Niklas e de sua filha Tekla. Uma casa bem recolhida no fim de uma estradinha de terra no meio de uma bela floresta – algo que também soa muito familiar. Lá, ficamos em uma casinha de hóspedes bem aconchegante, onde passamos duas noites. Ainda no primeiro dia em Lycka, passamos na casa de Martina, que fica na vila de Besinge para uma sessão de sauna na beira de um lago. Foi incrível poder sair da sauna escaldante e mergulhar no lago. Levamos nossos sabonetes e tomamos um belo banho também.

Esses dias foram muito interessantes por termos a oportunidade de conhecer melhor a Suécia. Tanto a moderna Estocolmo como seu pacato interior rural, as pessoas, seu ambiente e o contexto político.

Depois disso fomos direto para tocar no festival Punk Illegal, um evento que aconteceu nos dias 24 e 25/06 com apresentações musicais e oficinas. Um dos maiores eventos punk/faça-você-mesm@ da Suécia. Sua proposta é ser beneficente a imigrantes e refugiados que vivem na Suécia e trazer para o debate a questão da ilegalidade, da perseguição e das deportações por parte do estado, a dificuldade de se estabilizar em um novo país e também questionar o papel das barreiras e fronteiras que permitem a circulação de mercadorias e capital, mas não de pessoas. Temos notado que a questão da imigração é muito importante por aqui e isso nos deixou mais empolgados ainda para participar de um evento como esse.

Fomos a segunda banda a se apresentar no primeiro dia do festival. Das bandas que tocaram no dia, podemos citar com destaque o Monachus, um sludge bem tocado e muito bem equipado de uns suecos fãs de Neurosis, a banda Ruidosa Imundicia com seu som rápido e vocal feminino de muita energia e, também o Juggling Jugulars, um punk rock com muita presença, de mais de 20 anos de estrada. Foi legal ver como anos de experiência podem fazer a diferença em uma banda.

No segundo dia abrimos a programação do festival com uma palestra sobre Punk em tempos de Ditadura Militar no Brasil. O que foi uma ótima oportunidade para trazer relatos e visões do lado sul do globo. O debate que se seguiu mostrou o que os participantes estavam muito interessados e curiosos sobre o assunto.

Houve também a exibição do documentario Noise and Resistance, sobre cultura punk de resistência na Europa de hoje, com entrevistas e relatos de pessoas envolvidas em bandas, espaços e grupos de vários países. As melhores apresentações do dia foram do Burning Kitchen, uma banda sueca clássica dos anos 90 que fez um incrível show de reunião, e também do The Fight uma banda polonesa de hardcore punk politicamente engajada muito energética, que não foi embora até tocar umas 3 músicas bis.

Outras bandas que estavam no festival, Nailbiter, banda formada por brasileiros e um italiano, defiance, hellbastards, sotatila, simbiose, vitamin x…

Depois de mais uma noite na Suécia, no suburbio de Göteborg , rumamos no dia 27/06 para a cidade de Aalborg, na Dinamarca, onde tocamos com a banda Defiance, de Portland, que também participou do Punk Illegal com seu street punk que mais parece uma carreta Scania sem freio, e uma outra banda local no espaço chamado 1000Fryd. O 1000fryd é um espaço criado há 28 anos pelos grupos de esquerda e que depois a galera anarquista passou a fazer parte da adminstraçao do local.Nosso show correu bem, apesar de algumas falhas técnicas e uma pele de caixa estourada na primeira música. Dormimos por lá mesmo, no maior camarim que provavelmente veremos em nossas vidas. Essa galera dinamarquesa sabe mesmo receber visitas. No dia seguinte, o pessoal do espaço nos levou para um churrasco com muita farofa (com direito a vegasco, patês, saladas e bebidas. Farinha de mandioca mesmo, nada! Pena, até estamos com saudades…) numa ilha da cidade, com uma das praias mais estranhas que já vimos.

O próximo show será na cidade de Rostok, Alemanha. Até lá!


Primeiro show em Estocolmo

Sábado foi nosso primeiro show. Mas antes dele – o dia ainda tinha acabado de começar – já tínhamos muitas coisas pra fazer: arrumar as malas, ir para a feira anarquista de livros e depois para a festa da Feira, que era exatamente o nosso show. Acordamos às pressas, e saímos todxs com uma Van antiga, transformada artesanalmente em motorhome, com cozinha e uma cama de casal.

O pessoal deixou a gente na feira e foi organizar a festa, inclusive carregando coisas nossas, que estavam em duas casas, aquela em que ficamos e na do Stefan, que serviu de posto de entrega de equipamentos que compramos via internet.

Passamos o dia na Feira. Quando chegamos já ficamos encantadxs, com toda estrutura e o clima em geral: cozinha na entrada do prédio, com muitas pessoas trabalhando juntas, panelas gigantes, lava louça ecológico; música ao vivo; bikes, cachorros, crianças e muita gente circulando: pessoas da Grécia, França, Alemanha, Inglaterra, Finlândia, Peru, Espanha, vários lugares da Suécia.

Ao entrarmos no prédio, mais empolgação: baquinhas de livros, zines, pôsteres, bottons, discos… informação para todo lado, nem sabíamos para qual ir. Aos poucos fomos andando e nos perdendo em meio às informações. Além das banquinhas no evento tinha oficinas, palestras, filmes, uma sala para as crianças e música ao vivo. Aos poucos fomos nos contagiando e entrado no clima do evento. Nâo deixamos de notar uma grande familiaridade com a forma de organizarmos eventos no brasil: a preocupação com a alimentação das pessoas, as várias atividades acontecendo ao mesmo tempo, a vontade de colocar diferentes visões em contato.

Depois de visitar toda a feira, descemos para o lado de fora e ficamos conversando. É claro que não podíamos ficar de fora: Andreza, Pandora e Paulo se enfiaram na cozinha para ajudar a organização da Feira. E assim fomos conversando, trocando idéias e conhecendo as pessoas e participando das palestras e workshops: vimos uma mesa com diferentes correntes do movimento antifascista na Oi!ropa e uma sobre o anarquismo na Grécia. Em ambas procuramos contribuir, com perguntas e, quando pertinente, falando de como estão as coisas no Brasil.

Às 4 da tarde nossa Van chegou. Imediatamente corremos para vê-la, ansiosxs por saber o tamanho do porta-malas e ver o quanto teríamos que nos apertar com tanta tralha que trouxemos. Mas não! Com certeza vai caber tudo e nada como uma boa organização para ficarmos bem confortáveis nos bancos e até dormir durante as viagens. Conhecemos também o Sebastian, dono da van e amigo da Xenia, que também nos acompanhará na viagem, como segundo motorista.

Às 5 da tarde saímos para o lugar do show e, mais uma vez, ficamos empolgadxs e inspiradxs com o lugar. Para falar a verdade, muitxs sentimos até saudades do Impróprio, de todo aquele sentimento maravilhoso de quando estamos realmente fazendo as coisas do modo em que acreditamos e de que gostamos, com pessoas que valem a pena, com coisas que só nos fazem acreditar mais e mais no que estamos construindo.

O Espaço se chama Grundbulten, tem uma bar com comida vegan, o espaço de shows com vários ambientes: mesas para comer, sofás e salinhas para conversas, além de um quarto para acomodar as bandas de fora. O espaço tem pouco mais de 6 meses e está passando por diversos problemas que podem comprometer sua existência: falta de pessoas que organizem coisas, que façam as coisas, falta de apoio, valores altos de contas e aluguel. Fomos recebidos com comida, bebida à vontade e equipamento bom. Depois de comer e conversar com as pessoas do espaço, fizemos a passagem de som e começamos a organizar nossa banquinha: camisetas, bottons, moleton, patches (contra a vontade do Paulo =p), livros, zines e tanta coisa que parecia que não acabava nunca.

Primeiro show com nosso equipamento e, é claro que algumas coisas deram errado: nosso amplificador não funcionou, mas logo conseguimos um outro emprestado para tocarmos. O show contava com mais duas bandas, o Midnite Stalkers e o Ignominy. A primeira foi o Ignominy, algo misturando power violence com um pouco de metal e vocal bastante gritado, o Midnite toca um punk rock mais voltado ao rock, muito bem tocado. Quanto ao nosso show, ouvimos muitos comentários bons; da Xenia, uma única crítica; segundo o Sebastian: “Se a Xenia só reclamou de uma coisa, vocês podem considerar que o show foi muito bom!”. Após as bandas, como é tradição na Suécia, rolou festa com música a noite toda. Ficamos ainda horas conversando, comendo mais ainda, ouvindo músicas de diversos países (Fabrição mandou uns Cóleras e Inocentes na “vitrola”) e aproveitando para nos despedir das pessoas que não veríamos mais.

O melhor de tudo foi, no final, saber que inspiramos muito o pessoal da organização a ter forças e continuar lutando pelo espaço. É claro que eles também nos inspiraram. A troca foi feita.

Proximo show será no Punk Illegal – punkillegal.org -, na sexta. Agora estamos em Jädeas (foto abaixo), uma casa no meio da natureza, onde tem lobos, ursos, lago, mata nativa e casas típicas suecas. Em breve colocaremos mais notícias de como foram nossos dias aqui.

Ansiosos pelo Punk illegal, um festival beneficente a imigrantes na Suécia, com palestras, bandas, encontro de amigxs…


Dia frio e Chuvoso em Estocolmo!!

Hoje amanhaceu  (se é que amanhece aqui) frio e chuvoso. Como ainda precisávamos fazer algumas coisas, ficamos na casa  fazendo comida, conversando, marcando os shows do final da tour e fazendo comida pra vender. Aproveitar o tempo frio no verão do Norte dentro de casa pareceu a melhor pedida.

Mas é claro que tem os que não conseguem ficar muito tempo preso em um lugar tão cheio de novidades, então,  Paulo, Issac, Renato e Xenia foram para uma festa e Josi, Andreza e Pandora ficaram na casa marcando os shows e fazendo alfajor para vender e terminando a noite vendo Os Simpsons.

Agora é dormir e acordar cedo descasados para a Feira Anarquista e depois irmos para o nosso primeiro show. Depois do show não voltaremos para esta mesma casa e já nos despedimos de Jonas, Frederick e nosso cachorro “banana”, “tucano” ou “tubarão”.

Agora nossa rota até 2 de julho em  Rostok (Alemanha) para vocês já irem se familiarizando com nossas longas e divertidas viagens de Van.

 

 

 


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Passeando por Estocolmo!

Segundo dia de Suécia!!! Enquanto sábado não chega, com o primeiro concerto, seguimos por aqui, lotando de colchões e roncos a sala do Jonas, Frederick e do cachorro louco cujo nome não aprendemos, mas que chamamos de Banana, de Tucano ou de Tubarão… A casa ficou um pouco mais cheia, nosso amigo sueco-brasileiro Fabrição se juntou a nós e tá caindo na goma também.

De manhã, Josimas e Andreza na internet: mais acertos em relação a shows ainda não marcados, contatos etc. Café da manhã com guacamole e leite de aveia. Paulo e um love affair com a Gretchen, uns vinis na vitrola…

A tarde foi tirada para irmos ao centro dar rolê e resolver umas coisinhas. Fomos levados numa van amarelo-ovo que ainda não é a nossa (esta está a caminho, vindo da Alemanha, onde foi consertada), uma mini eurovan amarela com bancos apenas na frente e uma bela cama de casal no fundo. até um ponto do centro, de onde seguimos até um ponto précombinado para encontrar a Xenia.

No melhor estilo guia turístico, o centro e muitas de suas histórias nos foram apresentados: a já não tão aparente tradição esquerdista e operária da parte sul do centro; o monumento a quem deixou a Suécia para lutar na guerra civil espanhola, onde normalmente se iniciam os protestos de 1° de maio; a Praça do Sangue no centro velho, onde ficava a guilhotina da cidade muito tempo atrás (a praça ganhou esse nome devido à execução de mil pessoas de uma só vez,o que lavou a praça e as ruas em volta de vermelho); o palácio real (coisa de turista 0.o); a vista, uns parques, uns caminhos…

Depois de umas voltas chegamos a um dos destinos certos do dia, o Kaffe 44: o lugar está situado num prédio comprado por um grupo de pessoas anarquistas na década de 1970 e, desde então, gerido cooperativamente. No local, além de atelieres de trabalho de jornalistas, arquitetxs, jardineirxs, artistas plásticxs, funciona um jardim de infância e, claro, o café: o lugar, aberto em 86, conta com infoshop, cyber, sala para shows (onde, em 2002 a Execradores tocou junto com Makiladoras e Sju Svara Ar) e, claro, o café-restaurante, no qual tudo é vegan. Ficamos no lugar um tempo – um pouco respirando a atmosfera, alguns matando a saudade e reavivando memórias -, comemos makas (sanduíches) e bebemos (CubaCola e café de Chiapas).

Mais uma voltas, uma passadinha numa loja de instrumentos, uma subida a um mirante e, depois de uma passadinha numa loja de bebidas e num mercado, de onde partimos para outro parque para uma tradição sueca: piquenique e conversa num parque, com o sol nos acompanhando até a meia-noite…

De volta para casa, então, pegando ônibus e metrô no melhor estilo yomango.


Chegando na terra dos Vikings!!

Depois de meses de preparativos, mais de 500 emails enviados tentado marcar shows, preparando arte das camisetas, telando camisetas, felicidade com shows confirmados, stress com shows cancelados, os últimos dias antes da viagem foram bastante ocupados, cansativos, mas, ao mesmo tempo, cheio de coisas boas…

Na sexta ficaram prontos os bottons e, de noite, a Ziza apareceu em casa para pintar o banner com o logo da banda, para a gente usar nos shows. Enquanto elas faziam isso, o josimas acertava alguns shows que ainda não estão marcados e o Paulo cozinhou uma sopinha thai, com macarrão de arroz, curri e leite de coco.

Na terça, antes de ir ao aeroporto, ainda foram feitos os adesivos. Depois de um almocinho e de preparar uns lanches de tofu grelhado, tomate e couve, saímos carregando muita mala, inclusive uma que foi apelidada de “o corpo”, contendo todo o merchandising.

Depois toda a burocracia de check in e despacho de malas; farofada no aeroporto e, finalmente o embarque. A viagem foi tranquila e em umas 11 horas e pouco pousávamos em Amsterdã, para a conexão para Estocolmo e a parte crítica: passar na imigração.

O Josimas botou a mochila nas costas para esconder o patch onde se lê “Terrorismo ao Estado” e seguimos na fila. A Andreza e o Isaac foram os primeiros a ir ao guichê da imigração. Os moços loiros que atendiam os dois se olharam e disseram algo entre si. Em seguida, olharam a fila e perguntaram para a Andreza se estávamos em um grupo. Foi nessa hora que o cu fechou mesmo: o agente olhou para tod@s nós e disse: “Por aqui”.

Saímos da fila e vimos a cara de espanto do agente: “São seis!?!”. E ali mesmo vieram com perguntas: “Who´s the boss?”, “Num tem boss tanenhuma”, pensamos, mas respondemos em coro um simples “No bosses”. A caminho do guichê a que fomos levados essa pergunta ainda foi repetida umas três vezes e, no guichê, mais uma vez: “Com quem podemos falar?” e nós, mais uma vez: “Com qualquer um”. O Paulo e a Pandora tomaram um pouco mais a frente, por estarem mais à vontade com o inglês. E uma batelada de perguntas e requisições: “Para onde vocês vão?”, “Onde vocês vão ficar?”, “Quanto tempo?”, “Mas em seis?”, “Onde estão as passagens de volta?”, “vocês têm uma carta de convite?”. Os agentes sabem botar na parede: perguntaram a profissão e a quantidade de dinheiro que carregavam para exatamente @s desempregad@s e em situação menos vantajosa. Durante nossa “entrevista/interrogatório”, notamos uma senhora numa situação ainda pior, sem falar inglês, brasileira, pele preta, sendo interrogada sem qualquer tipo de piedade e antes dela, um outro brasileiro também tendo que se explicar. Uma aumentadinha na renda aqui, milhões de respostas em meio ao medo ter nossa entrada negada, um “auxiliar de escritório” para lá e tchum, devolveram-nos os passaportes. Só faltava passar as malas nas esteirinhas do raio-x e os corpos pelo detector de metais. Desmancharam toda a mala do Isaac, cheia de cds e eps, mas foi só para completar a tensão.

Depois disso, pernas ainda tremendo, fomos tod@s ao banheiro descarregar a tensão e o rango dos aviões e embarcamos para Estocolmo, onde chegamos com mais duas horas e pouco de voo.

Na Suécia, encontramos portões abertos sem nenhum guarda para nos perguntar nada. Depois de uma busca no aeroporto e de uma ligação feita pelo serviço de informações do aeroporto para o celular da Xenia, que estava atrasadinha, nos encontramos e partimos no carro de um amigo chamado Alex para a casa onde ficaremos um par de noites. É um apartamento do subúrbio de Estocolmo, no bairro Hagsätra, uma área pobre da cidade. Cozinhamos (pasta!), conversamos com o Frederick e o Jonas, dois dos anfitriães (moram 4 pessoas no apê), brincamos com o bull terrier da galera, com nome menos escrevível que pronunciável.

Para hoje, rolê no centro, uns infoshops e um parque. E algum trabalho, marcando os shows do fim da tour.

O subúrbio da Suécia:


European Tour 2011


JUNE

18 – Stocolmo

25 – Punk illegal fest – Stocolmo/Sweden
26 – Day off
27 – 1000fryd – Alborg/Denamark
28 –
Day Off
29 – Day off
30 -Day off

JULY

01 – Flensbung/Germany

02 – Rostok
03 – kopi – Berlin
04 – Day off
05 –
Day off
06 – Wedland/Germany
07 – Leipzig/Germany
08 –  day off
09 – Vienn/Aus – EKH
10 –
PragaCzech Café Na p?l cesty

11 – Medika squat – Zagreb
12 – ljubliana/Slovenia
13 – Café deCentral – Innsbruck/Aus

14 –Switzerland – La Sarraz – La Bille

15 – Grenoble/France
16 – Barcelona/Spain
17 – Girona /Spain
18 – Day off
19 – Brest/France

20 – Rennes/France

21 – Carvin – France
22 – Gent/Belgium

23 – Amsterdan

24 – Amsterdam/Pirate Bar
25 –  – Osnabruck/Germany

26 – Cologne/Germany –

27 –
Day off
28 –
Badel (near Salzwedel/Altmark)
29
Burg Lutter (Lutter /Barrenberge) (near Salzgitter) (wer lebt mit wem CAMP)
30 – Bielefeld /Germany
31 -Berlin / Germany –
scharni