Wedland

Resolvemos dedicar um post apenas para Wedland, um povoado a 3 horas de distância de Berlim. O motivo? Primeiro porque até então foi o lugar que mais nos inspirou e, porque com certeza, temos muita coisa pra contar. Sabemos que um post não será suficiente para descrevermos tudo que sentimos e conhecemos por lá, então, quando chegarmos em São Paulo, podemos conversar e contar cada momento e cada história que ouvimos.

Wedland é como um vilareijo, formado por casas de vila, fazendas e muita natureza. O pequeno povoado sofre todos os anos porque o lixo radioativo de muitas usinas é levado todos os anos de trem e depositado em uma área na comunidade. Durante este período (meados de setembro), moradores e fazendeiros planejam táticas para impedir a chegada deste lixo. A resistência é forte e todos são muito unidos para conseguir a todo custo barrar o lixo que põe em risco, de forma terrível, a água, a terra, o ar, os animais e a vida dessas pessoas. São feitas muitas coisas para impedir a chegada do lixo, desde manifestações até atos mais radicais, como prender um carro na linha do trem com pessoas dentro para barrar a chegada do trem.

Chegamos ao local do show, um espaço auto gerido pelos moradores da comunidade.  Não estávamos esperando muitas pessoas, afinal um show punk em uma área “rural” e longe dos grandes centros estava sendo algo novo para nós. Mas logo de início fomos muito bem recebidos pelas pessoas que estavam organizando o show e a cada minuto que passava, nós víamos em cada expressão a felicidade exalando de dentro daquelas pessoas com a nossa chegada.

Para nossa surpresa, encontramos uma brasileira chamada Ellen, que estava passando um tempo na fazenda do pessoal que organizou o show. Durante a conversa, as histórias que Ellen nos contava sobre a fazenda, sobre como as pessoas se organizam e vivem, nos contagiavam e inspiravam. Ellen começou a contar sobre a fazenda. Nela moram 10 pessoas. Eles plantam (hortas), produzem pão, suco de maça, queijo, vinho, vinagre, leite e manteiga. Tudo que é produzido na fazenda é para o sustento das pessoas que ali vivem. Algumas das coisas, como o suco de maçã, o pão e o queijo são trocados por outras coisas, que não podem ser ou não são produzidas na fazenda; usualmente, as trocas são com as pessoas da própria comunidade de Wendland. A fábrica de suco de maçã tem toda sua eletricidade gerada por energia solar. A água quente por aquecimento a lenha, a partir de um forno gigante do lado de fora da casa; o saneamento é feito com filtros de plantas e depois a água limpa é jogada em um lago. Algumas pessoas da fazenda trabalham fora e recebem dinheiro. Todo ele, mais o dinheiro da produção excedente da fazenda é destinado a uma caixinha a que todos têm acesso, sendo dividido igualmente entre todos. O dinheiro é o que menos tem valor: primeiro tudo é feito à base de trocas, e algo é comprado somente quando realmente necessário. Se precisam de algo que não possuem, primeiro procuram ver se pessoas da comunidade possui tal coisa para emprestar ou trocar e, caso não, procuram primeiro por produtos usados. Até a internet da fazenda é paga por meio de escambo: o técnico recebe em suco de maçã e queijo.

A fazenda já existe há 20 anos e nunca houve problemas com divisão de dinheiro ou qualquer outro tipo de briga relacionada a isso. Autonomia é a melhor palavra que encontramos para definir a fazenda e a vida das pessoas que vivem ali. O dinheiro é um mero detalhe para quem quer comprar um vinil da banda que mais gosta.

E toda essa história foi nos contagiando e nos inspirando para fazer o show. A cada minuto mais e mais pessoas chegavam. Verdade! O lugar lotou de gente e nós éramos a única banda da noite. Nem precisamos falar do show, nosso melhor show, desde a energia das pessoas, o som e nossa execução.  Com direito a voltar para o palco duas vezes, pois as pessoas não deixavam a gente parar de tocar.
Depois de passar por diversas cidades grandes, squats, cafés vegan, encontramos algo simples, mas que nos inspirou por completo. Comemos comida orgânica, sucos, pães, frutas vermelhas, vegetais, muitas coisas boas, produzidas e oferecidas por pessoas cujas caras conhecemos e para as quais pudemos sorrir de volta.

No dia seguinte, claro, não podíamos ficar sem conhecer a fazenda pessoalmente. Acordamos e seguimos para lá. Uma tour de duas horas, na qual cada parte da fazenda nos foi apresentada: a fabrica de pão – o Paulo nao resistiu e meteu a mão na massa – e a de suco, as hortas maravilhosas e cheias de vida, o pomar de macieiras, nas plantações de berries, o sistema de captação de energia solar e o de aquecimento d’água, o saneamento ecológico, a casa e os vagões para visitantes…

Mas, enfim, já era hora de seguirmos viagem para Leipzig, ainda na Alemanha. Antes de seguirmos, entretanto, devíamos consertar a ignição do carro, de desde o dia da nossa chegada não funcionava e nos obrigava a empurrar a van, fazendo-a pegar no tranco. O pessoal nos mandou então para uns conhecidos que têm uma mecânica, pessoas que também foram ao show na noite anterior e que fizeram todo o serviço de graça, com um sorriso no rosto. A melhor notícia, porém, foi o convite para mais dois shows na região mais para o final da tour nos dias 28 e 29 de julho. Assim, a despedida ficou menos dolorosa e poderemos reencontrar as pessoas e vivenciar todo este sentimento novamente.


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