e Viena nos aguardava…

Saimos da região de Wedland sentido Leipzig. Claro que no caminho fomos conversando ainda sobre o que tínhamos vivenciado com todos e todas. Dois de nós já tinhamos estado no Zoro – um squat em Leipzig e contamos um pouco de como era o squat para os outros. O Zoro está num quarteirão onde há mais sete prédios ocupados e nosso show seria num deles, o Liwi.

No caminho, conversamos também sobre outros assuntos, dentre eles, claro, comida. A Xenia nos disse então que Leipzig é famosa pela comida das bandas. Uma garota, que era inclusive vocalista da banda Provoked, é uma grande chef e tem um restaurante na cidade, ao lado do Zoro e, quando o show é lá, ela cozinha. Mas o show não era. Chegamos ao espaço, as duas bandas que tocariam conosco, uma finlandesa e outra canadense, que viajavam juntas, já estavam no local e subimos para o jantar. Logo soubemos que a van deles foi apreendida pela polícia, pois era roubada e eles não sabiam. Estavam sem van e sem backline (por alguma razão, não estava mais com ele), mas, pelo menos, tinham apenas mais um show na tour.

Conhecemos o espaço de shows (um típico bar com palco) e o cara que ajudava na organização, e que inclusive fez a comida. Ele não tinha cara de ter muita experiência culinária: uns dezoito anos, no máximo, cabelo nos ombros, uma bandana na testa e um colete jeans. Mas aparência não é nada. Enquanto conversávamos, subimos a escada para comer, o jantar estava pronto e, de longe sentíamos um cheiro muito bom. Esfregávamos as mãos!! Então notamos: o cheiro vinha de uma frigideira com um punhado de cubos de tofu defumado frito… devia ter uns dez cubinhos de meio centímetro cúbico para cada. Notamos, então, que comida seria macarrão, rotineiro cardápio em tours pela europa (começamos cantar, como das outras vezes: “o intervalo tem cheirim de macarrão, e a barriguis, ronca mais do que um leãozis…”). Até aí tudo bem, poderia ser macarrão, a gente gosta e, se fica uma semana sem até sente falta. Mas estamos falando de macarrão, não daquilo. Estava horrível, sem gosto: uma massaroca grudada com margarina e umas ervas, provavelmente uma salsinha congelada que vendem em caixinhas; um bolo de macarrão. Jogamos os cubinhos de tofu em cima, sorrimos, agradecemos ao garoto e engolimos a parada. Mas, mesmo com  fome, o prato estava indigesto.

Hora do show, montamos tudo, pois seríamos a primeira banda. As outras duas bandas nos pediram os amplis de guitarra e baixo emprestados, tudo bem, essa não seria primeira vez que emprestamos algo aqui na Europa, e no Brasil dividir equipamento já é quase automático. Sem problemas. Tocamos para uma galera mais voltada ao grind e ao fastcore e mesmo assim, vendemos alguns discos e muitas pessoas vieram conversar conosco sobre nosso show, que foi mesmo bom.

Ao fim do nosso show procuramos algum lugar para comer, pois o macarrão indigesto não saciou nossa fome e muito menos nosso desejo por comida saborosa. Fomos a um café da galera punk, o Lazy dog, mas infelizmente, não tinha mais comida (servem vários tipos de cachorro-quente vegan lá) e caimos no pão com presunto de soja e creminhos. O Paulo comprou um caviar vegan e achou ok, mas não tudo isso. Voltamos ao espaço e ouvimos uma das piores bandas de toda a tour tocando: uma distorção horrível de metal zone, mal regulada, ainda. Vimos que nosso ampli de guitarra não estava funcionando e já nos preocupamos. Esperamos a banda acabar o freaking show e fomos ver o que tinha acontecido: sim, nosso ampli de guitarra não funcionava mais. O Paulo nunca ouviu tantos “I’m sorry, man”; o cara era atencioso e tentou ser solícito, ajudou a carregar equipamento e tudo… ele era gente boa, mas atrapalhado e, como músico, um ótimo qualquer outra coisa. Tentamos fazer funcionar e vimos que o fusível tinha queimado, ou seja, nem tão problemático assim. Colocamos-no de lado e outro foi providenciado para outra banda totalmente inaudível subir ao palco. Por fim, nos restou esperar, retirar todo o equipamento e ir dormir no Zoro, onde também achamos antigas pichações da tour da Execradores. A Xenia e o Paulo ainda voltaram ao Liwi para mais uma cerveja, onde ouviram do mesmo cara com quem o ampli quebrou uma entediante conversa de como a cena canadense é ruim para ele. No dia seguinte, acordamos, fizemos o café  da manhã, saímos para comprar o fusível e seguimos viagem, sentido Viena.

Chegamos lá super tarde pois tínhamos saído atrazados de Leipzig. Nosso anfitrião, o Andy, nos esperava, nos apresentou o squat EKH, que foi ocupado há 20 anos e que agora tem um contrato com a prefeitura. O lugar é um prédio de vários andares, com muitas portas de ferro pesado, sempre trancadas. Apresentou-nos o lugar de dormir, o banheiro com banheira e nos deu a senha da internet. Dormimos com a intenção de acordar cedo e caminhar pela cidade. Assim fizemos, acordamos e saímos até mesmo sem tomar café da manhã. Mapa da cidade na mão, pegamos oTram – o bondinho – e fomos a um antigo cemitério da cidade, com os túmulos de Mozart, Bethoven, Schubert, Strauss e Schöenberg; havia um setor judaico, o qual foi bombardeado durante a segunda guerra mundial.

Saímos de lá para o centro da cidade, fomos à igreja de St. Stephan, que tem uma arquitetura incrível e assustadora e depois fomos até o tradicional parque de diversão na cidade, onde se encontra a famosa Giant Ferris Wheel. Para quem não sabe, é uma das mais antigas rodas gigantes do mundo, que sobreviveu a incêncios e bombardeios das duas grandes guerras mundiais (e, segundo o Renato, foi onde Celine e Jesse deram seu primeiro beijo no filme “Antes do Amanhecer”). No entanto, o brinquedo que nos pareceu mais atrativo era uma espécie de kamikazi  de duas pontas, muito alto, mas menor em número de assentos: sentam-se quatro pessoas de cada lado (cada parelha fica de costas para a outra), com as pernas penduradas. A geringonça é tão alta que proporciona uma bela vista panorâmica do horizonte de Viena. Pandora, Renato, Isaac e Paulo encararam o passeio, que além da vista oferece uma bela sensação de como agem as forças de inércia, a energia centrífuga e a centrípeda. Em outras palavras o bagulho fica te rodando até você perder a noção de em cima ou embaixo e, em suma, é do caralho.

Voltamos ao EKH para descansar um pouco, passar o som, montar a banquinha e comer. Dessa vez congratulamos o chef: serviram-nos uma salada de feijão muito bem temperada e um fantástico assado: espinafre e batatas, também muito bem temperados, como recheio de uma massa folhada feita lá mesmo: um crocantezinho que derrete na boca, coisa fina.
Uma banda projeto da galera do EKH tocou, todos vestindo roupas brancas semi bizarras, uma vocalista que parecia uma enfermeira de filme de zumbi e tals. Depois tocamos, ficamos conversando com a galera e alguns de nós fomos descansar, pois no dia seguinte teríamos uma longa viagem até Praga.

Mas a noite ainda guardava umas surpresas para alguns de nossos amigos. Depois do show, duas garotas brasileiras, Natália e Nicole, se aproximaram do palco e se apresentaram como amigas de amigos brasileiros que tinham ficado sabendo do show através deles. Estavam viajando por vários países na Europa e coincidentemente foram parar em Viena. Conversamos um pouco e cogitamos dar uma volta pela cidade. Renato, nosso baterista, foi tomar banho. Um procedimento comum (e cada vez mais raro) mas que parece ter aberto as portas para alguma antiga maldição vienense que o perseguiu pelo resto de sua estadia na cidade. Ainda no quarto, percebeu que havia perdido sua sacola com todas as cuecas e meias. Tudo, bem, ainda tinha a cueca que estava usando, uma limpa e uma suja. Lavando todo dia uma durante o banho e não perdendo mais nenhuma ficaria tudo bem. Já no banheiro, encarou o clássico desafio de um banho na Europa: nenhum box ou chuveiro fixo, apenas uma banheira com uma grande cortina, uma ducha solta que você tem que segurar com uma mão enquanto se esfrega com a outra e a aparentemente simples torneira onde você equilibra água quente e fria. Bom, para começar, a água quente resolveu não comparecer e a solução foi um banho glacial no estilo tortura medieval. Para compensar a perda de calor, nosso herói tentou tomar banho um pouco agachado. Mas o destino o esperava com muito mais frieza e astúcia. Na reta final do seu enxágue, um passo em falso sobre a longa cortina que descia até o fundo da banheira tirou seu equilíbrio. Tentou sentar na beirada da banheira (que era um pouco mais alta que o comum), mas acabou grudando todo o corpo na cortina e rolando para fora direto para o chão ao som das presilhas arrebentando. Ficou por lá alguns minutos nu, sobre a cortina pensando se valia a pena se levantar e levar a vida a diante. No entanto, resolveu ir em frente.

Se juntou a Isaac e Paulo conversando no espaço de show com as novas amigas brasileiras. O papo se estendeu pela noite no bar do squat até que os cinco resolveram dar um último passeio pela cidade. Um pequeno lanche às margens do Rio Danúbio e se despediram de suas amigas que tinham que voltar para casa. Já estava quase amanhecendo e os três decidiram ver a chegada do sol e esperar por uma Julie Delpy.  E para quebrar astral, Paulo tomou e atirou no rio uma das moedas da coleção do Renato, o que pareceu deixar os deuses vienenses ainda mais zangados. Segundo o Paulo, a moeda foi uma oferenda pela felicidade e beleza na vida do Renato.

Ao voltarem para o squat, descobriram que a chave que tinham só abria a entrada e não a porta que dava acesso ao andar dos quartos. O jeito foi dormir nas escadas. Mas o deuses dos banheiros vienenses ainda estavam acordados. Renato, que ainda sentia a dor do tombo da noite anterior, foi acometido por uma urgente movimentação intestinal que clamava por um lugar para despejar sua fúria. Após subir e descer os andares acessíveis do prédio, voltou até os degraus onde seus amigos dormiam e disse que não encontrou nenhuma porta que levasse a um banheiro. Paulo disse para ficar feliz se encontrasse uma sacola. Mas a vida, essa sim, é uma caixinha de surpresas. Nosso herói desceu a até o subsolo buscando um lugar mais reservado coletando tudo o que julgava ser útil e o saldo foi: quatro cartazes de show, um prato, uma bacia e uma pá. A emoção foi tanta que seus intestinos vibraram e emoção, não dando tempo nem mesmo para que tirasse o tenis e a calça. A solução foi tentar uma manobra sem muita visibilidade. Usando toda a sua habilidade permacultural, construiu um mini-banheiro-seco-portátil. A pá recebe os sólidos, a bacia os líquidos, o papel (depois de amassado e desamassado para aumentar sua maciez) pode servir de papel higiênico e mais tarde de embrulho. Só esperamos que a lata de lixo seja esvaziada por aqueles caminhões automáticos e não pela mão de algum pobre diabo.

Depois dessa magnífica noite em Viena, principalmente para  Renato, acordamos, tomamos um belo café da manhã e seguimos viagem para o Leste Europeu: Praga, Croácia e Eslovenia.


Warning: Division by zero in /home/nogoders/public_html/tunapunkrock.com/wp-includes/comment-template.php on line 1379

Comments are closed.