A tour Européia: último relato!

A tour acabou: foram 44 dias, 29 shows, uma semana ao norte da Suécia, no meio da floresta, com banhos em lagos, sauna a lenha, mais banhos em lagos, alces… alguns dias na Dinamarca e uns ao norte da Alemanha e depois foi show atrás de show. Tudo que você está lendo agora já aconteceu há um bom tempo e nossa incapacidade de manter esse diário próximo aos acontecimentos se deu por uma parcela de irresponsabilidade e por tentarmos viver ao máximo cada minuto naquela terra europeia, afinal não é sempre que estamos lá. Segue aí o relato mais que póstumo: divirta-se, aprenda, entenda…

10 de julho bem cedo já estávamos na estrada sentido Praga, Repúplica Tcheca. Queríamos chegar cedo para andar um pouco pela cidade e conhecer um pouco das suas construções  e história. A viagem foi um tanto longa, mas como estávamos ansiosos não sentimos muito e conseguimos chegar com um bom tempo para tudo que queríamos fazer. Estacionamos bem perto do centro e andamos pela cidade, suas praças, igrejas, a famosa ponte e o palácio. A maioria das construções são do seculo XVIII, mas algumas são do século XIV. Esculturas católicas assombrosas, outras lindas, uma das cidades mais bonitas que vimos até agora, os preços das coisas são muito mais baratos em relação ao resto da europa, desde gasolina até comida. Uma paradinha em uma taverna e seguimos para o local do show.


O GPS, ou nossa falta de aptidão com ele, nos levou a outro lugar, mas por fim conseguimos chegar ao parque onde seria o show. Um bar-café no meio do parque, com coisas veganas, uma galera punk trampando, uma galera fazendo picnic, outros se divertindo, cachorros punks correndo e bagunçando entre todos e todas. Fomos super bem recebidos, com um clima bastante amigável.


Soubemos que havia um outro show marcado para  nós no mesmo dia e horário, ali mesmo em Praga, mas não entendemos quem tinha marcado, constava no site de um outro pub. Como não tínhamos mais informações sobre esse outro show, ficamos por ali mesmo, no parque, conversando muito com uma brasileira que mora na Finlândia e que estava em Praga porque tinha ido ao Obscene Extreme Festival e aproveitou para conhecer uma banda brasileira.

A primeira banda, Sanitarium, tocou cedo pois tínhamos que terminar o show antes das 22h. Apesar de cansados,  pois também estavam no Obscene, tocaram super bem com um som energético e um show curto, pois o tempo corria. Logo que terminaram, montamos nosso equipo e tocamos, um show rápido com menos músicas devido ao tempo e num clima super energético. Fim, de show, suor, bate papo e antes da meia-noite já estávamos na van para uma viagem super longa até Zagreb. Partimos, com a promessa de que sempre teria alguém conversando com nossa princesa guerreira Xenia, que dirigiria aquela noite… após 30 minutos, todos dormiam, menos ela, que mandou super bem no voltante até chegarmos na fronteira da Croácia; todxs, devidamente acordadxs, estavam tensos para a entrada no país.

Instruídos por nossxs amigxs que organizaram o show em Zagreb e com uma carta convite, a entrada não foi tão difícil. O policial nos intimou com um inglês maravilhoso: “Alguém aí tem drogas? Se tiver é melhor para vocês me avisarem neste momento, Now!”. Resposta negativa e seguimos adiante.
Chegamos ao Medika, um squat com quase 3 anos, enorme e que era antes uma fábrica de medicamentos, o que o fazia ter um cheiro forte de iodo em todos os lugares. Lá moram 10 pessoas e alguns visitantes. Hoje eles mantêm um acordo com a prefeitura em relação a parte do squat, mas outra parte continua ocupada ilegalmente. A biblioteca é bem variada, o infoshop tem bastantes zines, revistas, livros e é muito bem organizado.

O show foi dividido com uma banda local e uma sueca. Por fim virou um encontro com amigxs da nossa primeira semana na Suécia e com as novxs amigxs croatas. Tínhamos uma oficina de saúde da mulher neste dia, mas Andreza não estava muito bem e acabamos cancelando. Durante o show ela falou coisas muito legais sobre saúde da mulher e autonomia, o que conquistou uma galera e nossas anfitriãs.

No dia seguinte, recebemos um email do organizador do nosso show na Eslovênia cancelando nosso show. Resolvemos ir direto para Innsbruck, no mesmo dia, mas antes queríamos passar em algum lugar tranquilo para comer algo e, se possível, nadar um pouco. Ainda em Zagreb encontramos uma praça legal, mas com um lago bem feinho e sujo, e resolvemos seguir viagem sentido Innsbruck até encontrar um lugar e parar um pouco.

Algumas horas depois desviamos um pouco nosso caminnho sentido um lago já na Eslovênia. Chegando lá, vimos o lago com a água mais bonita que já tinhamos visto, um lago enorme e com águas cristalinas, no meio dos Alpes. Passamos horas pulando, uns jogando merda de pássaros em outros até a fome apertar.

Então procuramos um lugar para comer uma pizza, um barzinho típico em uma casa do século XIX, muito bem arumadinha, deliciosa e com atendentes muito simpáticos. Comemos e seguimos viagem até chegarmos a Innsbruck, onde nosso anfitrião nos esperava já há um tempo, pois deveríamos ter chegado 4 horas antes. Fomos recebidxs com grande hospitalidade, e ainda havia camas para todxs.

No dia seguinte acordamos, encontramos o melhor café da manhã de toda a tour e um clima delicioso. Comemos e seguimos para um lago nas montanhas, estávamos na região do tirol, uma região montanhosa, linda, com lindos lagos.  Este a que íamos, infelizmente, tem acesso restrito e pago, mas 6 brasileiros, 2 suecos, 1 italiano, uma espanhola e 1 austríaco não pagariam, não estando todxs juntxs. E lá fomos nós pular cerca; depois saímos correndo e sentido o lindo lago, este com trampolim e plataforma de mergulho. Posso dizer que essa foi a tour dos lindos lagos.


Após saltos de trampolim, jogar bola, mergulhar, entramos em uma plantação de batatas, pegamos algumas (não poucas) para o jantar de todas as bandas e fomos para o espaço onde seria o show, o Café Decentral, um espaço alugado pelos coletivos anarquistas da região para suas reuniões, shows, bar, café etc. Esta é uma prática de lugares onde a ocupaçao é dificil: os grupos alugam um espaço e dividem seus projetos.

Tocaríamos naquela noite com uma banda local chamada Cachorros Viciados, que tem um brasileiro no vocal e com a Wrath Cobra, dos EUA, que se juntou ao show após o cancelamento do deles naquele dia, em outra cidade. Tivemos uma noite com bons encontros e ótimos momentos… após os show ainda rolou uma festa até o dia seguinte; algumxs foram dormir, outrxs ficaram se divertindo…

Acordamos no dia seguinte, alguns com poucas horas de sono: outro ótimo café da manhã e saímos em direção à Suiça, um povoado chamado La Sarraz, pertinho de Lausanne. A recepção foi ótima: o amigo Rafael Bosa e a amiga Priscila nos aguardavam no espaço cultural La Bille, um espaço alugado, com serralheria alternativa, bar, sala de jogos, armações de ferro por vários lugares, um pequeno infoshop, uma loja grátis, ótima comida… o show teve mais uma banda e o som do lugar era muito legal. Tocamos e fomos para Lausane, dormir na casa dxs nossxs anfitriões brasileirxs. Andreza passou mal devido a algo na comida que não lhe bateu bem. Foi uma noite difícil, mas com bastante atençao e chás que ajudariam em sua melhora.

Acordamos cedo, pois a viagem até Grenoble era bastante aguardada, mas a Andreza ainda não se sentia bem. Compramos alguns remédios e seguimos viagem. Chegamos a Grenoble direto no Infoshop, uma lojinha muito bonita, com diversos livros, discos, zines, café, tudo muito inspirador. Andreza continuava bem mal mas resolveu dar a oficina de saúde da mulher no infoshop, contando com a tradução da nossa amiga francesa Colyne, que fala português. A oficina rolou com umas 10 mulheres entre punks, feministas, donas de casa… foi bem legal e produtiva, tudo sempre com muito carinho e atenção.

Depois fomos para o squat onde tocaríamos e encontramos nossos amigos do Chicken´s Call, pessoal que foi nosso porto seguro nessa tour, organizou toda a produção do nosso primeiro disco e nos incentivou a organizar a tour europeia. Foram ótimos momentos. O squat tem um ano e deve durar pelo menos mais 6 meses. Tem oficina de silk screen, estúdio, bar, espaço para shows, dormitório, casa para algumas pessoas, distro.
A banda da noite foi o Chicken´s Call, um show cheio de energia e execução impecável, com a galera cantando todas as músicas junto.


A Andreza continuava deitada dentro da van, o que nos fez pensar em deixar de tocar naquela noite… O pessoal do squat continuava dando atenção para a gente: chás, arroz sem tempero, tudo para que a Andreza melhorasse… Por fim ela resolveu tentar tocar, mesmo se sentindo muito mal.
Parece que a música é um ótimo remédio para o corpo e a mente mesmo: começamos a tocar e a energia que fluía no local começou a fluir dentro de nós também e conseguimos fazer um de nossos melhores shows, o som do local é muito bom, a acústica perfeita e o equipamento foda.


Depois da apresentação a Andreza voltou ao descanso e continuamos conversando muito com nossxs amigxs franceses, para aproveitar ao máximo o tempo que teríamos juntxs, pois no dia seguinte a viagem seria longa, teríamos que acordar cedo e já não sabíamos mais quando voltaríamos a nos ver. Foi ótimo.


Acordamos, arrumamos tudo muito rápido. Esperamos a ótica onde o Paulo tinha deixado os óculos, quebrados com uma cabeçada de amor da Maria, a espanhola de Innsbruck, abrir. Nesse meio tempo ele usou os óculos de sol, que também têm o grau necessário para o cegueta ver. Nos dois shows que seguiram ao de Innsbruck ele teve que avisar no palco: “I´m not trying to be cool, I just broke my regular glasses!!”, ao que a galera respondia: “It doesn´t matter, you´re looking cool anyway!”.

Partimos sentido Barcelona, onde todxs tinham muitxs amigxs para encontrar e uma noite para viver com eles. A estrada é linda, cheia de construções de pedra muito antigas, alguns castelos, mas a viagem é muito longa. Para completar era um feriado na França, o que nos fez pegar vários trechos de engarrafamento e pedágios que, além de caríssimos, tinham filas quilométricas.

Quando faltavam 100km para Barcelona nosso querido pneu furou e lá fomos nós trocar: macaco pequeno, não conseguia levantar o carro a uma altura suficiente. Procuramos muito uma pedra ou madeira para servir-lhe de apoio, mas nada. Usamos, então, um livro russo e deu tudo certo… Chegamos a Barcelona às 10 da noite, já deseperados pelo atraso enorme, e ainda erramos o caminho: o GPS nos levou à rua programada, em Barcelona, mas o show seria numa rua de mesmo nome numa parte da Grande Barcelona, tipo no ABC de lá. Mais meia hora e chegamos ao local do show, onde nossxs amigxs nos esperavam para começar o show. Chegamos e Las Otras, banda da Ieri, ex-Bulimia, tocou. Foi bom ouvir a voz dela cantando uma vez mais. Depois a Descrença Absoluta, dos nossos amigos mineiros e mais uma banda local cujo nome não lembro agora… Depois do concerto, uma divisão das pessoas, umas foram dormir num lugar e outras em outro. Nos encontraríamos no dia seguinte para caminhar por Barcelona. Ah!, o squat é um antigo prédio do governo, gigante, ocupado há 2 anos, onde ocorrem alguns shows e mora uma galera.


Café da manhã recheado de brasileirxs, amigos de quem gostamos muito. Aproveitamos ao máximo. Caminhada com muita gente pelo parque, mas nenhum espanhol, somente brasileirxs , uma russa e uma portuguesa. Foi ótimo, nos divertimos muito.


Seguimos sentido Girona, ainda com uma trupe de brasileirxs. Lá também encontramos a galera do Suit Side, da Bélgica. Nos sentimos super bem no squat, uma antiga casa de pedra ocupada há 5 anos, com uma bela horta, galera vegana… A renda da comida vendida no dia seria em benefício ao movimento de ocupação dos espaços públicos, o que está rolando em vários lugares do mundo. Tocamos com a Descrença Absoluta e mais uma banda, um bom concerto.

Notamos entre Barcelona e Girona que nossa van começava a perder força. Pensamos que seria a qualidade da gasolina, pois em Barcelona pagamos muito barato por ela.
Nosso próximo show seria na terça, em Brest – França, mais de 1000km distante.  Conseguimos, mais uma vez com a ajuda do pessoal do Chicken´s Call, um lugar para dormir  em Bourdeaux.
Fomos chegando e nos espantando com a beleza da cidade: casas de pedra, ruas estreitas, mar,  um clima gostoso que contagiou todo mundo na nossa van. Procuramos o endereço, nos perdemos, subimos em um prédio muito antigo, que parecia sair de um filme francês sobre algo do começo do século XIX, de pedras e meio torto, não achamos o apartamento do nosso anfitrião e o celular dele não funcionava. Depois soubemos que o celular havia quebrado. A fome apertou, resolvemos procurar algo para comer e fomos achados pelo nosso novo amigo, que nos levou ao apartamento dele e depois a um novo squat na cidade. E que squat, puta merda! O prédio parecia ter sido um hotel, vários quartos e uma cozinha foda, que ainda tinha duas geladeiras, fogão e mesas do antigo proprietário. Lá nos esperava um delicioso macarrão e um bom vinho. Ficamos conversando, tomando vinho. Banho tomado, adormecemos para seguir viagem cedo no dia seguinte. Por querer aproveitar ao máximo, não tiramos fotos.

Seguimos para Brest, uma cidade na região da Bretanha, com costumes e cultura próprios, muito bonita e interessante. Na França, os shows normalmente ocorrem em cafés, e naquele fomos super bem recebidos. De lá fomos à casa de um dos organizadores do show jantar, macarrão de novo. Voltamos ao espaço do show, pois já era tarde e seríamos a única banda. Montamos o equipo, fizemos uma passagem de som rápida e começamos a apresentação, que foi muito energética, animada e com o horário apertado, pois tínhamos que parar às 22h: assim fizemos, mas deu tempo até para um bis.
Depois ficamos conversando muito com várias pessoas, com o dono do bar que nos oferecia shots de Jack Daniels e bons chopes, claro bem bebidos e agradecidos. Depois ainda teve jogo de bocha na praça com a galera local.

Dormirmos na casa de uma galera que estava viajando e no dia seguinte fomos conhecer um pouco mais da cidade, ver o mar… e seguir para Rennes, uma cidade também muito bonita com construções de palha e terra, algumas do século XIII, casinhas tortas de madeira, mais uma vez como um cenário de um filme de época, muito bonita e aconchegante. Mais uma vez nosso show seria num café, também de palha e terra, muito legal. Tocamos com uma banda local e com uma banda do País Basco.

Acordamos cedo mais uma vez para seguir viagem, desta vez já indo sentido Bélgica, mas com mais um show no norte da França, numa cidade chamada Carvin. Antes, em outras cidades, sempre que nos perguntavam onde mais iríamos tocar e respondíamos Carvin entre outras, ninguém nunca tinha ouvido falar dela e, chegando lá, entendemos o porquê: a cidade é muito pequena, cresceu de uma vila de trabalhadores das minas de carvão locais e os moradores são todos descendentes de mineradores. Ainda é comum ver pilhas de carvão abandonadas em um canto ou outro da região. Nenhuma pessoa envolvida com o show falava inglês ou espanhol; não conseguimos nos relacionar direito com a galera no quesito fala, mas o clima estava legal e o show foi animado. O organizador é de um do selos que lançou o nosso disco e estava muito feliz por receber os discos e ver nosso show.

Por fim, seguimos para Gent, Bélgica. Chegamos cedo, ainda na parte da manhã, afinal, em Carvin não havia muito o que fazer, nem dar rolê nem conversar. Acordamos o pessoal do squat em que iríamos tocar. Dois prédios muito grandes que eram os escritórios de finanças da cidade, sem energia, sem água, tudo muito difícil, mas com muita força de vontade. Logo fomos a um outro prédio bem perto, onde morava outra galera. Eram uns prédios pequenos, tipo uma vilazinha, às margens de um canal. Fomos muito bem recebidos pela galera do Freedon in Fire Collective, uma galera anarcopunk das mais ativas: eram elxs os organizadores do evento. Avisaram-nos que parte da grana seria em benefício a uma galera que estava presa devido a uma manifestação em outra cidade. Após o café nos separamos em grupos, cada um tinha vontade de fazer algo na cidade e assim foi, vimos castelos, igrejas antigas, muros com 900 anos, e muita das historias que só conheciamos de filmes; também descobrimos que a Bélgica não é, em matéria de preço, um bom lugar para frequentar restaurantes. A cidade é bem aconchegante, tranquila, vários rios, uma diversidade cultural muito legal. Voltamos para o squat, cujo palco dividiríamos com mais 5 bandas. Lá havia um gerador ligado, fornecendo energia para a parafernália de som, o qual também ligava uma pequena bomba que fazia com que houvesse água em alguns lugares do prédio.

Sobre o show, muitxs de nós não conseguimos ver direito as outras bandas porque o local era fechado e todas as pessoas lá fumavam. Foi realmente um show com uma galera super legal mas insuportável para quem necessita de oxigênio. Por termos nos acostumado ao Brasil, onde as pessoas não jogam mais fumaça na sua cara em locais fechados, a situação daquele concerto foi, por muito tempo, algo que não compreendíamos, gerando até muito nervosismo em alguns de nós e impossibilidade de ficar no local para outrxs…

Estávamos muito ansiosos para irmos a Amsterdam. Deixamos Gent o mais rápido possível, mas nossa van, que já não vinha bem, resolveu ficar pior, sua velocidade era baixa e não tinha força. Não sabíamos ao certo o que era, chutávamos vários problemas, mas tínhamos a linguagem como um problema maior (quem sabe nomes de peças automobilísticas? Como dizer rebimboca da parafuseta em inglês?) e a incapacidade de nos entendermos aumentava em situações que precisávamos agir coletivamente.

Chegamos a Amsterdam meio tarde, já decididos a arrumar o carro. Ficamos a noite quase inteira conversando, fazendo reuniões, nos desentendendo para decidir o que faríamos no dia seguinte, acabamos aproveitando muito pouco do nosso show, mas decidimos o que iríamos fazer no dia seguinte.
Tocamos com os amigos do Veda Side, da Bélgica e com uma banda chamada Total Disorder, de Israel, banda punk bem legal, que nos impressionou um pouco.

Encontramos velhos  amigos e isso foi o melhor momento da nossa passagem por lá. No dia seguinte, acordamos prontos para fazer tudo que tínhamos combinado, alguns iam andar pela cidade, mas tudo que passamos a noite inteira conversando e discutindo foi mudado. Novas conversas, tensões entre o grupo e resolvemos seguir até o próximo show, que ficava próximo a Amsterdam, um squat chamado Pirate Bar, um grande galpão na região do porto que já funciona há uns anos. Toda a estrutura interna foi construída pela galera de lá, pois quando entraram no lugar ele era apenas um grande galpão sem nada dentro. Divisórias foram feitas e agora há sala de concertos, estúdio, serralheria, oficina de bikes. O local é incrível. Há ainda um café vegano, com a cozinha mais organizada e a maior geladeira do rolê.

Tocamos com as mesmas bandas da noite anterior e isso nos deixou felizes, pelo menos até a hora de dormir, coisa que nem todxs conseguiram, pois a galera resolveu fazer festa do lado do dormitório ou em cima dos beliches… Foi uma total disorder que os israelenses aprontaram. Presepadas à parte, sobrevivemos e seguimos para nossa próxima cidade, para outro concerto e quem sabe o conserto do nosso carro, cujo problema nem sabíamos ainda qual era, pois mecânicos e mecânicos avaliavam e cada um tinha uma opinião.

Chegamos em Osnabrück, de novo na Alemanha. O organizador do show nos esperava às 10 da manha para levar o carro a um mecânico. Nos deu a chave do Ajz, um centro social que era ocupado e que agora tem permissão, muito organizado, com uma cozinha incrível, bar, internet wi-fi, foda… Saímos para comprar algumas coisas para fazer um almoço, andamos pela cidade, supermercado e voltamos.
Infelizmente nossa van não ia ficar pronta ali, precisaríamos resolver: tínhamos compromissos, shows, inclusive o do Neurosis, ao qual queríamos ir e uma van para arrumar. Ao menos já sabíamos o que era: a maldita embreagem. Compramos as peças, só precisávamos de um mecânico e um tempo para fazer isso.

A noite, chegou o pessoal da banda Eastfield, uma banda inglesa no melhor estilo punk inglês, punk rock clássico, bem tocado, empolgante e o melhor: cheio de punks simpáticos, gordinhos, tiozinhos e muito legais. O show deles foi contagiante e para uma segunda feira, o show estava bem cheio, umas 60 pessoas… Depois deles tocamos e foi um dos nossos melhores shows. Estávamos empolgados pelo bom punk inglês.

Acordamos cedinho, café da manhã e fomos para Köln. Na cidade vimos, passando de carro, a Music Store, uma loja gigante que tem muita coisa, tudo muito barato. Um dos planos era em algum momento livre ir ate lá e o fizemos. Deixamos todo nosso equipo no Ajz, um prédio enorme ocupado onde a galera faz os eventos, fomos para a casa onde iríamos dormir por dois dias, pois tínhamos o show do Neurosis no dia seguinte, em Dortmund, a uma hora de trem de Köln.

À noite voltamos para a ocupa, onde tocamos com as meninas da Beyond Pink, uma banda da Suécia com um som foda, um visu muito louco e que tocaram um cover de Beyoncé!! Nosso show foi meio morno, estávamos tensos por conta da van.

Dia seguinte rolês pela cidade, que também é muito legal, bem antiga, Music Store e, à noite, show do Neurosis. Como nossa van não tinha ficado pronta, fomos de trem mesmo. E esse monte de brasileirxs, tentando pegar trem na Alemanha foi uma loucura: pergunta aqui, pergunta acolá… compramos os bilhetes que falaram para a gente comprar e lá fomos nós… Chegamos cedo ao local, entramos e vimos o show que todxs esperavam ansiosos. O show é muito bom, impressionante o que esses velhos punks fazem, valeu a ida até lá. O Paulo ficou rouco e todxs nós um pouco mais surdxs.

O show terminou cedo, tínhamos tempo de pegar o trem, mas que trem? O sistema de orientação das estações não é nada prático para quem não sabe alemão, e dois guardinhas nos indicaram um que seguiria até determinada estação, onde faríamos baldeação para Köln. Depois de 40 minutos de viajem, chegamos à tal estação: procuramos a plataforma onde o trem passaria e vimos que esperaríamos mais uma hora. Depois dessa hora de espera, o trem que chegou era de primeira classe. Tentamos nos informar com o cobrador que estava na porta do trem se nossos tíquetes valiam e ele só nos mandou entrar. Sentamos no vagão chique, meio espantadxs e lá ficamos por cinco minutos, até que o fiscal/cobrador apareceu de novo, com uma maquininha de cartões na mão; viu nosso tíquete, disse o óbvio, que ele não valia ali e começou a calcular quanto devíamos pela viagem, uns € 300,00. Moral da história: desenbarcamos na estação seguinte, esperamos por mais uma hora, mais ou menos, e embarcamos em outro trem, esse de segunda classe – claro que o tíquete não servia para esse também, mas nele ninguém nos incomodou. Mais uma hora e estávamos no centro de Köln, mas o metrô estava fechado. Saímos em frente à catedral da cidade, gigantíssima, 160mts de altura, imponente. Seguimos nossa caminhada até a casa de nossxs amigxs, a pé, mas essa foi uma das partes mais divertidas da volta.

Dia seguinte tínhamos um show em uma cidade cuja galera já conhecíamos, pertinho de Wedland. Tocaríamos com Visions of War e todo mundo falava que essa galera é super gente boa… estávamos  ansiosos, mas nossa van não estava pronta e já estávamos no terceiro dia de mecânica… perdemos o show e o encontro com nossxs amigxs, triste.

Nossa van só ficou pronta na sexta e seguimos viagem com ela agora, turbinada, hehehe… novinha em folha.

Chegamos a um povoado, chamado Lutter, pequeno, uma ou duas ruas e facilmente achamos o local, mesmo sem endereço: um castelo construído no ano 1000, que era usado para a construção de ferraduras e escudos nas guerras, com direito a torre, fosso ao redor do castelo. O local esteve em inúmeras guerras, foi de diversas famílias ricas, mas acabou ficando abandonado e uma galera punk/anarquista, em 1980, comprou o que sobrou das construções… o coletivo, que tinha 30 pessoas, já no primeiro dia sofreu baixas: ficaram apenas 7 e, depois, somente 2, xs quais começaram a  reconstruir parte dos telhados, algumas paredes… hoje está quase tudo reconstruído e funciona coletivamente. Há, hoje, um grupo de 7 pessoas que vivem do suco da maçã, pães, um infoshop, silkscreen…

Rolava, então, uma semana de discussão de gênero: um acampamento de uma semana com diversas atividades relacionadas a sexualidade, gênero, organização. Muitas barracas, crianças para todos os lados, árvores, o clima era contagiante…

Fizemos um tour pelas construções ouvindo a história do lugar, os planos e, mais à noite tocamos; após o show, disco party.

Acordamos descansados e seguimos sentido Bielfield, uma viagem tranquila… o show seria no Ajz, outra ex-casa ocupada que agora tem contrato e permissão para funcionar como centro social… O clima foi foda, muitas conversas durante o jantar, inspirador para nosso show. O show foi um pouco vazio, pois havia um festival enorme e gratuito na cidade, mas mesmo assim foi bem divertido.

Dia seguinte era nosso último show, em Berlin mais uma vez. Os sentimentos se misturavam na van, alguns tranquilxs pelo fim da tour, outrxs tranquilxs mesmo com o fim da tour, outrxs tristes por estar acabando. Fizemos uma análise geral, na qual todxs falaram sobre suas opiniões e votaram: a pior comida, a melhor comida, a pior banda, a melhor banda, o melhor espaço, o pior espaço, a pior pessoa, a melhor pessoa, o sentimento geral da tour e nesse momento; para alguns veio muito forte a lembrança do Mudinho, e isso se perpetuou o resto do dia… Análises, diferenças, ouvir dx outrx o que achava de tudo e pensar que tínhamos conseguido passar por aquilo, não como um pesar, mas como um desafio… e como um de nós sempre falava: a liberdade é difícil.

Uma coisa que ficou muito marcada para alguns foi a quantidade de casas ocupadas ou centros sociais onde a galera mantém vivo tudo que gosta, shows, dias de comida vegana, bar, encontros, teatro, cinema, oficina de bike, vans transformadas em casas… e tudo dentro de uma rede de apoio ao punk, ao faça você mesmo.

Chegamos ao Sharny, uma ocupa legalizada em Berlin. Esse show estava sendo organizado por amigas que nos haviam visitado no Brasil e foi muito bom revê-las, fazer coisas juntos. Fizemos um bate papo sobre o Brasil, sobre o Espaço Impróprio, sobre desejos e vontades e depois tocamos, um show emocionante com a participação de todxs brasileirxs que estavam viajando; não havia muitas pessoas, mas, ali onde se encerrava o plano, pessoas importantes e algumas vitais para que a tour acontecesse puderam celebrar juntas e trocar o carinho da saudade antecipada.

Fim do show, tínhamos combinado de ajudar a galera da organização a desmontar, levar equipamento a diversos lugares e assim fizemos: carregar caixas pesadas, subir escadas, descer escadas, mas estávamos felizes, fazíamos parte do que sempre fazemos no Brasil: organizar eventos; não estávamos como uma banda que chega e pergunta “onde plugo meu cabo” e vai embora… nos sentimos bem e alguns de nós até pensaram que, se em todos os shows fosse assim, entenderíamos mais como as coisas funcionam em cada parte desta Europa punk que rondamos e rodamos nestes 44 dias, pois chegar, comer e tocar era fácil, mas queríamos mais, por que é  assim que acreditamos, que somos: queríamos saber como funcionava cada lugar, o que poderíamos fazer para ajudar, construir… buscar também inspiração para seguir fazendo tudo de que gostamos,  sabendo que em todo canto em que pensarmos haverá alguém carregando uma caixa de som, fazendo um cartaz, cozinhando, escrevendo zines, se revoltando, remando para um lado que pode ser o mais difícil… mas onde é fácil? Ser bem sucedido na vida vai além do que podemos comprar, ser bem sucedido é conseguir, mesmo que dificilmente, como é difícil a liberdade, fazer as coisas de que realmente gostamos.


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